Edmir Saint-Clair

Escritor · Rio de Janeiro

Edmir Saint-Clair

Crônicas, contos, ensaios filosóficos e poesia que interrogam o tempo presente. Mais de duas décadas de escrita sobre o que nos move, nos paralisa e nos revela.

ensaios 

PILOTO AUTOMÁTICO

PILOTO AUTOMÁTICO

“Adoramos achar que controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no controle.” — Edmir Saint-Clair

 Você não tem culpa de nada. Absolutamente nada. Nem daquele palavrão solto no trânsito, nem daquele amor que naufragou do jeito mais desastrado possível.

A primeira reação a uma frase dessas é um misto de alívio e desconfiança. A gente não costuma perceber quando age no automático e quando age de caso pensado — e a diferença entre as duas coisas é bem menor do que gostamos de admitir.

Fomos criados sobre trilhos que alguém colocou muito antes de nascermos. Assumir a responsabilidade moral por cada mínimo gesto é o que se espera de todo mundo. Ninguém fala isso em voz alta, mas todo mundo entende: é sinal de maturidade, de caráter, de gente que presta. Como se algum ser humano tivesse mesmo a capacidade de fazer as coisas acontecerem seguindo uma receita de bolo, como se toda decisão fosse fruto de uma resolução consciente. A gente sabe que não é assim. Todos temos pilotos automáticos que assumem o comando sem pedir licença. No meio da rua, sem querer, de repente, nos pegamos fuzilando com o olhar alguém que só esbarrou na gente sem querer.

Gostamos de achar que estamos sempre no comando de nós mesmos. Adoramos achar que controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no controle.

Por isso a gente bate no peito, em tom dramático, e diz: a culpa foi minha.

Tem uma vaidade inconfessável nessa frase. Um prazer quase sádico em se colocar no centro do universo. A culpa, no fim das contas, é talvez o maior celeiro de grandeza que a espécie humana já inventou para si mesma.

Pensa bem na prepotência dessa culpa.

Para você ser o grande vilão da própria história, o arquiteto do próprio fracasso, você precisaria ter o poder de parar o tempo, isolar a física, a química e a biologia do seu corpo, sair de dentro da sua própria história e dizer: eu, com minha mente soberana, escolho agora tomar a pior decisão possível.

Sério isso? Você acha mesmo que o cosmos estava prendendo a respiração à espera do seu movimento? Claro que não. É tão óbvio que chega a ser embaraçoso ter que dizer.

Ainda assim, tem uma indústria inteira vivendo de vender exatamente essa grandiosidade que o cosmos nunca ofereceu — e quanto maior a insignificância real, mais caro se paga pela ilusão do contrário.

Existe um gênero de livro — e você já leu um, ou fingiu que não precisava — que promete exatamente isso: o mapa da mina, o segredo, o método. A ideia vendida é sempre a mesma, só troca de embalagem: você é o arquiteto da sua realidade, você atrai o que pensa, você tem dentro de si o poder de reprogramar seus resultados. É uma proposta linda de se ouvir e, ao mesmo tempo, uma fraude com ares de ciência. Porque para vender esse controle, é preciso primeiro vender a culpa — e a culpa, nesse comércio, é só a entrada. Se você pode manifestar a riqueza, também pode ter manifestado a falência. Se pode atrair o amor, também atraiu o abandono. O produto e o problema vêm no mesmo pacote, e você paga pelos dois.

O curioso é que essa indústria constrói castelo sobre pressupostos sem qualquer embasamento empírico e, muito menos, qualquer tipo de seriedade de propósito.

Porque antes de perguntar se você controla seus atos, teria que se perguntar o que é, afinal, esse que pergunta. Esse você que observa e julga você mesmo. A consciência — essa sensação de estar aqui, de ser alguém por dentro, produzida por um punhado de neurônios disparando no escuro — é o maior mistério que existe. Não porque escape à matéria: ela é matéria, de ponta a ponta, tanto quanto uma pedra ou um rim. O mistério é que ainda não sabemos explicar como, exatamente, esse amontoado de células produz a sensação de ser alguém, nem por que produz sensação nenhuma em vez de escuridão pura. É sobre esse chão nebuloso, essa lacuna do conhecimento — não da natureza —, que o livre-arbítrio precisaria se apoiar para ser real. E é justamente aí que a autoajuda finge ter erguido um mapa. Vende certeza sobre o único território em que nem a ciência ousa afirmar qualquer coisa. Chamam isso de A Pergunta Difícil: o que é a consciência, aquele que me observa sendo eu mesmo, ao mesmo tempo.

O ser humano sempre gostou de se imaginar dotado de livre-arbítrio, o escritor do roteiro de sua própria vida. Talvez a gente seja pouco mais do que um figurante nervoso jogado num set sem roteiro — mas certamente bem menos do que o diretor que nossa vaidade insiste em bancar.

A ciência já sabe muita coisa sobre o que empurra a nossa vontade sem que a gente perceba — a biologia, a genética, a neurociência —, mas o que a vontade é, lá no fundo, continua um território tão nebuloso quanto no tempo em que se explicava tudo por espírito. Temos uma programação genética e uma configuração neural que empurra a mão para um lado ou para o outro antes que qualquer "eu" tenha tempo de opinar. Quando achamos que escolhemos, muitas vezes já é tarde: o corpo decidiu primeiro, e a mente só assina embaixo, como quem carimba um documento que já estava pronto.

Cada miséria, cada glória, é o resultado de uma alquimia maluca — substâncias estranhas, temperadas com pitadas da sua própria história, numa dosagem que você não escolhe e cujos ingredientes você nem desconfia que existem. Aquela mensagem meio desaforada que você mandou para a sua ex talvez não tenha sido uma decisão fria e soberana. Era só uma flutuação de glicose, uma queda de serotonina porque o chefe te olhou torto, acionando o mesmo mecanismo de defesa que seus tataravós desenvolveram na savana para fugir de um dente-de-sabre — tudo isso fervendo numa sopa genética que seus pais passaram para você numa noite de sábado qualquer, entre uma troca de fluidos e outra.

Mas onde é que fica o eu, no meio dessa história?

Onde está a pessoinha sentada numa poltrona atrás dos seus olhos, atordoada diante de um painel cheio de botões, puxando loucamente as alavancas da decisão?

Aqui é onde o conhecimento humano para, sem que isso signifique nada além do próprio limite. Somos máquina biológica — máquina angustiada que paga imposto e faz terapia —, isso eu não questiono. A dúvida não é se existe uma causa: existe sempre, física, concreta, ainda que a gente nunca chegue a mapear todos os seus fios. A dúvida é se essa causa, no caso específico da consciência, é algo que algum dia vamos conseguir descrever por inteiro — e por enquanto ninguém descreveu. Não tenho essa resposta. Ninguém tem. E talvez seja exatamente por não ter que a culpa consiga se instalar tão à vontade: ela precisa da certeza que ninguém possui para se sustentar. Onde deveria haver prova de que você podia mesmo ter agido diferente, há só a mesma névoa espessa de sempre — névoa de quem ainda não enxergou, nunca de algo que escapa à física.

Se o chão do livre-arbítrio é essa névoa, então a culpa que construímos em cima dele fica em pé sobre o nada. Torturar-se por escolhas passadas não é virtude — é um tique nervoso, um gesto compulsivo e adoecido, apostando com convicção total num território onde ninguém, honestamente, pode apostar nada.

A gente se agarra à culpa porque a alternativa é desesperadora. Aceitar que talvez a vida seja um cassino onde nem sabemos se os dados estão viciados fere o nosso orgulho mais fundo. Preferimos mil vezes ser o monstro culpado da própria tragédia a admitir que somos passageiros — talvez sem escolha, talvez com um resto de escolha que nunca vamos conseguir provar — dentro de um ônibus cujo motorista ninguém nunca viu o rosto.

Quando você entende que talvez seja só uma engrenagem fazendo o que uma engrenagem faz — e que o babaca que te destratou na fila da padaria também pode ser só isso, reagindo à própria sopa química temperada por toda sorte de tragédia —, a raiva evapora. Você fica mais leve. É quase impossível odiar alguém com a mesma intensidade depois que se admite que talvez o coitado nunca tenha tido escolha de verdade. É o convite mais radical e mais perturbador que existe: aceitar juntos essa mesma incerteza. Deixar de ser um juiz julgando todo mundo com uma certeza que ninguém possui, e virar só mais um paciente correndo pelo gramado desse hospício chamado vida.

Mas, por que fazemos isso? Por que gastamos décadas em divãs caríssimos, tomando um sem-fim de remédio para ansiedade e depressão? Porque passamos boa parte da vida remoendo alguma coisa como se, naquele momento, com aquela química, aquela história, aquele instante exato, pudéssemos mesmo ter feito diferente. Ah, mas se eu tivesse feito assim. Não era para eu ter feito aquilo. Meu Deus, que erro grotesco eu cometi. Como se alguém, algum dia, tivesse conseguido provar que sim, que você podia ter escolhido racionalmente ter feito diferente. Uma atitude é o resultado de incalculáveis acontecimentos de todas as ordens que constituíram a fisiologia dos neurônios até aquele momento.

No fim, talvez o que importe mesmo sejam os amores e os medos que nos arrastam através de um universo completamente indiferente — indiferente, mas não misterioso por escolha própria: só maior do que o instrumento que usamos para tentar medi-lo e tentar conhecê-lo.

Da próxima vez que você estiver trancado no banheiro, sentindo o peso do mundo, remoendo aquele vexame de 2018, faz um favor para nós dois: olha bem para o espelho e dá uma sonora gargalhada.

Porque talvez sejamos isso: uma piada muito bem contada, cujo autor ninguém encontrou ainda. E a graça está exatamente no patético de sofrer com essa síndrome de protagonista, quando nem sequer sabemos se existe roteiro.

A verdade inconveniente é que ninguém vai te vender a certeza de que você comanda a si mesmo — nem quem promete, nem quem nega. Seus erros talvez sejam ecos. Biologia sendo biologia, envolta numa camada de afeto, de história mal contada, e de um mistério que nenhum livro de autoajuda, nenhum laboratório, resolveu até hoje. Sei que descobrir isso dói. Mas desce logo desse palco.

Tira essa fantasia de mártir, que já está cheirando a mofo. E não se preocupe: se alguma atitude sua precisa mudar, ela vai mudar de qualquer jeito — por causas físicas que existem, tenham ou não sido ainda mapeadas por alguém. Pode descansar. Pode parar de fazer esse esforço todo de bancar quem decide sozinho o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar por inteiro.

Nosso caminho é aberto durante a caminhada, só nosso, original e único. A vida já é nebulosa e absurda demais para que você ainda queira se sentar na cadeira de diretor de um filme cujo roteirista não existe.

Edmir Saint-Clair

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ensaios 

OS TRÊS FILHOS DE CLELIA VERDIER

OS TRÊS FILHOS DE CLELIA VERDIER

 

        A primeira coisa que Clélia Verdier quis saber, ao acordar, foi onde estavam os filhos.

Em julho de 2025,  ela tinha dezenove anos e estava num hospital em Lyon, na França. Tinha chegado muito perto da morte, e os médicos a mantiveram em coma induzido por três semanas. Vinte e um dias, segundo o relógio da enfermaria.

Sete anos, segundo ela.

Nesses sete anos, Clélia engravidou e teve trigêmeos: Mila, Miles e Maïlée. Maïlée morreu logo depois do parto, e a mãe carregou esse luto por todo o tempo que veio depois. Amamentou os outros dois. Viu os filhos crescerem. Deu comida, levou para passear, contou história antes de dormir, anos de noites, uma atrás da outra, dentro de três semanas de silêncio.

Quando abriu os olhos, avisou aos pais que eles eram avós.

Os médicos explicaram que as crianças nunca tinham existido. Alucinação causada pelos sedativos. A explicação está certa, mas não dá conta do que aconteceu naquele quarto.

O que Clélia mostra é que a mente, privada dos cinco sentidos e sem nenhuma referência externa, não desliga. Ela constrói. E não constrói pedaços, não constrói imagem solta de sonho: constrói uma vida, com continuidade, com nomes próprios, com o peso da mama cheia às três da manhã, com a morte de uma filha e o luto que vem depois dela. Vinte e um dias de nada viraram sete anos de tudo. Está documentado, e ela é acompanhada por especialistas desde que acordou.

Tudo o que se pensa sobre os últimos instantes da vida esbarra no mesmo muro: ninguém volta para contar.

Clélia é o mais perto disso que a gente já teve.

Ela esteve num lugar onde a mente perdeu os sentidos, perdeu o mundo lá de fora, perdeu o relógio, e ficou com uma única referência: o que já existia dentro dela. Com esse material, e só com ele, criou uma vida alternativa inteira, fora do espaço e do tempo que a gente conhece. Depois voltou. E contou.

Num ensaio publicado em 2025, no livro Conversas Necessárias, levantei essa suspeita: a de que a mente, entregue exclusivamente a si mesma nos momentos finais, pode esticar o tempo até ele virar uma eternidade particular, moldada pelo que cada um carrega por dentro. O ensaio se chama A Eternidade de Cada Um. Era uma hipótese, feita juntando o que a neurociência já sabe com o que a filosofia ainda pergunta.

O relato de Clélia não prova essa hipótese. Mas descreve, quase passo a passo, a paisagem que o ensaio tentava imaginar. É o testemunho de quem foi até perto da borda e voltou com notícias.

E as notícias fazem a pergunta sozinhas: se três semanas deram sete anos, quanto tempo cabe nos últimos minutos, quando não existe mais um lado de fora para onde voltar?

Mais de um ano depois, Clélia diz que ainda sente falta das crianças. Diz que ficou mais difícil se aproximar das pessoas. Diz que é mãe deles e que sempre vai ser, sabendo perfeitamente que eles nasceram dentro da cabeça dela. Ela não está confusa. Faz terapia justamente porque não está.

A saudade é real. Acontece num corpo real, todos os dias, por crianças que nunca respiraram. O que a mente constrói sozinha deixa no corpo a mesma marca que a realidade deixa.

Clélia voltou.

As filhas ficaram lá, no único lugar onde o tempo não passa.

Edmir Saint-Clair


A Eternidade de Cada Um está no livro Conversas Necessárias (2025).

Leia A Eternidade de Cada Um aqui

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O exemplar impresso vendido na Amazon é a mesma edição do Clube de Autores, distribuída também por lá. O Kindle em dólar é uma edição própria, com preço fixado nos EUA, ainda em análise pela Amazon.

Um faxineiro limpa uma mancha do lado errado do vidro no último dia de trabalho. Uma mãe reza porque não há para quem ligar. Um estagiário sai para o banco todo dia depois do almoço e nunca chega a banco nenhum. Uma cidade de sete milhões de pessoas fica vinte horas sem energia, e nem os geradores pegam.

Os catorze contos de A Rotina do Absurdo se passam no Rio de Janeiro e começam sempre no lugar mais comum que existe: a hora de sempre, o trajeto de sempre, o café passado no coador de pano de sempre. Então alguma coisa entra. E a rotina não para para olhar.

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Crônicas 

PESOS E MEDIDAS

PESOS E MEDIDAS

 

Quanto é demais? Quanto é de menos? Quanto é o certo?

A gente quer saber isso sobre tudo. Quanto de comida satisfaz e quando começa a encher demais — você conhece aquele ponto. Quanto de bebida alegra e o quanto entristece. Quantas horas de trabalho realizam e quando começam a esvaziar a gente por dentro. Quanto de sono repousa e quando vira preguiça disfarçada. Quanto de tempo com a pessoa que amamos é presença e quando vira sufoco.

A gente procura a fórmula. Oito horas de sono. Dois litros de água. Trinta minutos de exercício. Uma hora de meditação. Dois filhos. Três viagens por ano. Uma conversa por semana com o melhor amigo.

Números. Proporções. Um manual do equilibrista.

Mas aqui é o incômodo: no fundo, a gente já sabe que não existe fórmula.

A fenomenologia — aquela coisa de filosofia que estuda como a consciência encontra o mundo — diz uma coisa simples: não há medida universal porque não existe experiência universal. O meu corpo, minha história, minha situação agora transformam tudo em singular. O que é demais para você é de menos para mim. O que me realiza no trabalho pode te esvaziar. A solidão que cura alguém mata outro.

Cada um descobre sua medida vivendo, não calculando. A vida  acontece no durante.

E aí está a tensão: a gente segue querendo a fórmula — porque fórmula é segurança, é poder dizer "fiz certinho" — mas segue vivendo sabendo que ela não existe. Procuramos o manual para não ter que confiar no que sentimos. E ao mesmo tempo, desconfiamos do manual porque nada nele bate com o que a gente de fato vive.

Não é problema. É tensão. E tensão é onde a gente existe.

A leveza, talvez, esteja em parar de procurar o ponto de equilíbrio perfeito e aceitar que equilibrista que caminha é aquele que se desequilibra a cada passo e volta — a cada respiração, a cada escolha. É como andar de bicicleta, só funciona se a gente estiver em movimento.

Edmir Saint-Clair

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Hipóteses  Pensamentos 

VESTÍGIOS DE CIVILIZAÇÕES HUMANAS EXTINTAS?

VESTÍGIOS DE CIVILIZAÇÕES HUMANAS EXTINTAS?

 

           Em 2025, uma varredura inovadora sob a Pirâmide de Kéfren revelou um complexo subterrâneo surpreendente. Cinco estruturas em níveis múltiplos, oito poços cilíndricos de 648 metros de profundidade e duas imensas câmaras cúbicas se estendem por 2 km abaixo do Planalto de Gizé.

Usando tomografia avançada com Radar de Abertura Sintética (SAR), pesquisadores das universidades de Pisa e Strathclyde desafiam o que sabíamos sobre as pirâmides. Teorias emergentes sugerem que essas formações podem ser vestígios de uma civilização ancestral avançada – ou até parte de uma rede energética perdida, ecoando as especulações de Nikola Tesla.

Será que as Grandes Pirâmides eram muito mais do que simples tumbas? O que mais poderá estar oculto sob as areias do Egito?

Luciano Villar


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ensaios  neurociências 

RUMINAR LEMBRANÇAS

RUMINAR LEMBRANÇAS

        Gosto de ler sobre o que a ciência anda descobrindo por aí — hábito antigo, quase vício — e na paz de quem mora só e bem acompanhado, costumo deixar o pensamento se soltar inspirado nessas leituras, só para ver aonde me leva.

O cérebro embarca para outro tempo, um tempo esquisito, um tempo dele — que, mesmo eu sendo ele, é difícil de entender.

Basta um segundo de silêncio — distraído com o café e a chuva na janela — para o cérebro puxar do fundo do armário uma frase idiota que você disse a um estranho há sete anos. E vem um caminhão cheio de sensações físicas: o coração acelera um pouco, o peito aperta, e o cérebro, sem pedir licença, decide que aquele é o momento perfeito para reprisar a cena em alta definição.

Fico imaginando por que ele insiste nisso. Por que gastar energia com um episódio que não pode ser mudado?

Todo bicho deste planeta evoluiu para o presente, para o perigo imediato. O leão não remoi a presa que escapou semana passada — descansa, e parte para a próxima caçada. Nós somos os únicos que passam metade da vida acordada vivendo num tempo verbal que já não existe mais.

Há uns anos li algo que não me sai da cabeça: você, nessas horas, não está só lembrando — está rodando uma simulação neural cara, bancada pelo próprio corpo.

Foi um neurologista chamado Marcus Raichle quem topou com isso meio sem querer, no início dos anos 2000. Ele e a equipe esperavam que o cérebro, ao parar de focar numa tarefa, entrasse em repouso e baixasse o consumo de energia. Os exames mostraram o oposto: quando você para de mirar o mundo lá fora, uma rede inteira de regiões cerebrais se acende, como uma cidade inteira iluminada à noite. Deram a isso o nome de rede de modo padrão — e ela consome sozinha cerca de 20% de toda a energia do corpo, mesmo quando você acha que não está fazendo nada.

Fico brincando com esse número. Duzentos mil anos de Homo sapiens, e gastar um quinto das calorias do dia remoendo cenas do passado deveria ser, para qualquer engenheiro distraído da evolução, um defeito de fábrica. Um ancestral nosso, remoendo o desentendimento com o líder do bando a três luas de distância, vira almoço fácil de qualquer predador. E no entanto a coisa não só sobreviveu — virou a espinha dorsal de como pensamos.

Gosto de imaginar o motivo lá atrás, uns três milhões de anos, quando os antepassados começaram a viver em grupos cada vez mais complexos. Para um bicho puramente físico, a dor de um corte avisa do dano no corpo. Mas para um bicho social — e o ser humano pré-histórico era, acima de tudo, isso —, a dor da rejeição devia ser sentença de morte de verdade. Ser expulso da tribo, há cem mil anos, era enfrentar sozinho o inverno e as feras. O cérebro deve ter aprendido, então, que errar socialmente era tão perigoso quanto veneno ou garra — e criado uma ferramenta bruta: simulação mental e dor retrospectiva.

É como se a mente carregasse a caixa-preta de um avião que caiu. Depois do acidente, a única forma de não repetir o erro é ouvir a gravação inteira, dezenas de vezes, até achar onde o piloto errou. Só que o cérebro parece não distinguir muito bem uma ameaça de vida ou morte de uma conversa constrangedora numa reunião de trabalho. Para o sistema nervoso, os dois eventos parecem disparar os mesmos circuitos de medo e vergonha.

Tem um estudo de 2003, do psicólogo Matthew Lieberman com Naomi Eisenberger, na UCLA, que é esclarecedor nesse sentido: a dor social e a dor física ativariam a mesma região do cérebro. Se for isso mesmo, lembrar de algo constrangedor de cinco anos atrás não é figura de linguagem — é biologia acontecendo agora, cortisol na corrente sanguínea, ritmo cardíaco alterado, músculo contraindo. Você sentiria, de verdade, o impacto físico do passado no corpo presente.

Pareceria uma máquina perfeita de sobrevivência primitiva — até a gente notar o possível erro de código no mundo de hoje. Fomos calibrados, ao que tudo indica, para viver em grupos de trinta a cento e cinquenta pessoas, o tal número de Dunbar.

Nesse mundo pequeno, as interações diárias eram poucas e previsíveis. Errava-se, e havia uma vida inteira, entre os mesmos rostos conhecidos, para reconstruir a reputação.

Hoje processamos, imagino, numa única semana, mais interações, mensagens e julgamentos do que um ser humano da Idade da Pedra levaria décadas inteiras. E fico pensando se não é isso: o cérebro antigo rodando o mesmo software de análise de risco, só que agora num mundo hiperconectado para o qual nunca foi desenhado.

E aí o pensamento quer ir mais longe, sem pedir licença à ciência: e se não for só isso? Se, mesmo sem ainda ter sido percebido, nosso cérebro já tiver sofrido pequenas mutações, via epigenética, que estão nos levando a uma nova configuração de humanos? Será que estamos no correr desse processo? A possibilidade é grande, já que tudo está em constante evolução.

Mas voltando ao que já foi visto: o cérebro parece acreditar, de verdade, que reprisar o episódio pela milésima vez está protegendo o seu futuro.

Só que, ao contrário de uma perícia técnica, a ruminação não parece entregar solução nenhuma. Entrega um ciclo fechado de autocrítica que se alimenta da própria ansiedade — e há quem tenha dedicado a carreira inteira para provar isso, como a psicóloga Susan Nolen-Hoeksema: ruminar sobre o passado não resolveria problema algum, e ainda comprometeria a capacidade de decidir bem no presente.

Há uma ironia nisso que não canso de mastigar. Construímos cidades, dominamos a eletricidade, inventamos a medicina, erguemos redes para nos proteger das incertezas da natureza. Eliminamos quase todo predador do planeta e garantimos teto e comida para bilhões. E, ao blindar o corpo dos perigos da floresta, talvez tenhamos deixado o cérebro trancado na sala de simulação, sozinho com seus próprios fantasmas — agora digitais.

Não deve ser mal só do nosso século. Sócrates já alertava, antes de Cristo, sobre os riscos da vida não examinada — só não deve ter previsto o peso de uma mente que examina demais o próprio passado.

Penso que essa máquina do tempo biológica que chamamos de memória foi feita para nos manter vivos. Reviver o que já passou não seria sinal de fraqueza nem de cabeça quebrada — seria só o cérebro executando, com uma fidelidade impressionante, um protocolo antigo de proteção social, o mesmo que atravessou eras de escuridão e fome.

O problema é que o alarme continua tocando, mesmo com a tempestade lá fora já tendo passado — como se o corpo não tivesse recebido o aviso de que a guerra acabou.

Talvez a pergunta não seja como desligar essa máquina — porque, enquanto formos humanos, o mecanismo deve continuar ligado. A pergunta, essa sim gosto de deixar no ar, é por quanto tempo mais vamos permitir que o corpo pague a conta de guerras que já terminaram há anos.

Porque, no fim, o passado só existe na energia que gastamos para mantê-lo vivo agora. E lá fora — hoje, com chuva e frio — a vida continua acontecendo. No único segundo que realmente nos resta.

Edmir Saint-Clair

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ensaios  Reflexões 

COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO

COERÊNCIA: O RESPEITO A SI MESMO


 "Seja amigo íntimo de si mesmo 

e nunca mais se sentirá sozinho." - Edmir Saint-Clair

- Estou sendo quem eu digo que sou a mim mesmo?

Essa é uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.

É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.

Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no travesseiro.

A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou. A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente a mesma coisa.

É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.

Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um algoritmo.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.

Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.

Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.

Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.

O personagem cresce. E você encolhe.

Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram. Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si mesmo.

A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.

O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros distúrbios mentais que a sociedade atual padece.

A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.

A coerência é o antídoto.

É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem testemunha, sem like, sem story.

Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto — porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo quem você é.

Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe advogado de defesa. E não tem apelação.  Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior. Você é o seu próprio juiz e a coerência é sua lei maior.

Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho próprio — é agirmos da forma original e única que a nossa natureza nos dotou.

A coerência é a forma mais corajosa — e fiel — de se amar.

É respeitar profundamente a si mesmo.

Edmir Saint-Clair

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