ORIENTADOR LITERÁRIO

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VIÉS: NOSSO PONTO DE VISTA

Nossa visão do fato não é o fato.

Há pessoas que entram num bar convencidas de que escolheram a mesa, a bebida, a companhia e até a opinião que levarão para casa. É bonito. Quase comovente. A razão humana gosta de posar para foto.

Sentamos achando que pensamos. Muitas vezes, o que realmente fazemos é apenas reagir com vocabulário.

No bar, por exemplo, alguém comenta um assalto que aconteceu no bairro. Em poucos minutos, a cidade inteira virou uma ruína à beira de uma guerra civil. Não importa a estatística, o horário, a exceção, o contexto. A notícia mais recente ocupa o lugar da realidade inteira. É o viés da disponibilidade servido com o chope. O que está mais vivo na memória parece mais verdadeiro, mais frequente, mais urgente. A mente humana transforma lembrança em prova, susto em método, manchete em prioridade.

No encontro social, chega um desconhecido bem vestido, perfume caro, voz calma, olhar administrado. Antes mesmo que diga qualquer coisa relevante, já lhe emprestamos competência, equilíbrio, talvez caráter. É o efeito halo. Uma qualidade ilumina todas as outras, mesmo as que não existem. A boa aparência passa a funcionar como currículo moral. A simpatia vira evidência de qualidades. A elegância, de honestidade. Já o sujeito desajeitado, que derruba o guardanapo, é condenado antes do julgamento. A vida social é um tribunal de primeiras impressões, com toga, canapé e sem apelação.

No trabalho, a coisa piora, porque ali os vieses usam crachá.

Um chefe lança um número inicial numa reunião. “Acho que esse projeto não deve passar de cinquenta mil.” Pronto. A âncora foi jogada. A partir dali, qualquer debate girará em torno dela, mesmo que ninguém saiba de onde aquele número veio. Pode ter vindo de uma planilha, de uma intuição, de um sonho ruim, de uma conversa no elevador, das letras, das conchas, do tarô ou de Plutão retrógrado. Ainda assim, o primeiro valor contamina todos os outros. Chamam isso de planejamento. Às vezes, é apenas superstição com PowerPoint.

Nas amizades, o viés de confirmação trabalha com uma dedicação religiosa. Escolhemos sinais que confirmem aquilo que já decidimos sentir. Se estamos magoados, cada silêncio vira desprezo. Se estamos encantados, cada descuido vira distração charmosa. A mente não procura a verdade; procura testemunhas para a narrativa que já escreveu. E, quando encontra, exibe como quem encontrou um documento histórico dentro da própria gaveta.

Há amigos que deixam de ser amigos não por um fato, mas pela interpretação de um fato. Uma mensagem não respondida. Um convite esquecido. Um comentário atravessado. O acontecimento, em si, é pequeno; o viés, porém, sabe inflar pequenezas com rara competência. Em pouco tempo, aquilo que era apenas um atraso vira abandono. Aquilo que era cansaço vira desprezo. Aquilo que era distração vira sentença. E aquilo que era amizade vira vazio.

Na vida amorosa, então, os vieses entram com o pé na porta, sem pedir licença, abrem a geladeira, mexem nas memórias e ainda criticam a decoração.

A representatividade faz alguém concluir, depois de dois encontros, que o outro pertence a uma categoria já conhecida: os indisponíveis, os narcisistas, os inseguros, os salvadores, os perigosos, os que somem, os que voltam, os que dizem “vamos marcar” e jamais marcam. A pessoa real desaparece atrás do tipo. Julgamos o outro não pelo que ele é, mas pelo personagem que ele nos lembra. Às vezes, não nos relacionamos com alguém, mas com um arquivo antigo que esquecemos aberto.

A aversão à perda também governa muitos amores. Não ficamos apenas porque amamos; às vezes ficamos porque perder parece doer mais do que permanecer. A perda tem voz alta. O ganho é mais educado. A possibilidade de recomeçar quase sempre chega vestida de ameaça. Assim, muita gente chama de amor o medo de abandonar um investimento emocional antigo. Não quer a pessoa; quer não perder a versão de si que construiu ao lado dela.

O enquadramento da foto muda tudo. Dizer “terminamos porque já não havia amor” é uma coisa. Dizer “tivemos coragem de não falsificar a permanência” é outra. O fato pode ser o mesmo, mas a moldura reorganiza a dor. Na vida, muitas vezes não mudamos os acontecimentos; mudamos a legenda. E, com uma legenda melhor, suportamos quase qualquer fotografia.

Depois vem o viés retrospectivo, esse profeta atrasado. Quando a relação acaba, sempre aparece alguém para dizer: “Eu já sabia.” Sabia nada. Suspeitava, talvez. Torcia, talvez. Reorganizou os fatos depois do incêndio e agora desfila com um balde d’água vazio na mão. Depois que tudo acontece, a mente costura uma lógica aleatória e nós a aceitamos como verdade.

Também há o excesso de confiança, esse pequeno ditador íntimo. Achamos que conhecemos os outros, que sabemos onde determinada escolha vai dar, que desta vez não seremos enganados, que nossa intuição é afiada, que nossa análise é madura, que nosso coração, depois de tantos acidentes, aprendeu a dirigir. É nossa pequena redenção.

Daniel Kahneman nos oferece, no fundo, uma humilhação necessária: não somos tão lúcidos quanto imaginamos. Dentro de nós há um sistema rápido, automático e intuitivo, que decide antes que a razão chegue. Depois, entra o pensamento lento, mais analítico, mais cuidadoso, mas frequentemente preguiçoso. Ele chega tarde, olha a confusão feita e cria uma justificativa elegante.

Talvez seja isso o que chamamos de opinião: uma intuição antiga usando roupa nova.

O problema não está em termos vieses. Eles fazem parte da arquitetura da mente. Foram úteis em algum momento remoto, quando decidir rápido podia salvar a vida. O problema começa quando confundimos rapidez com verdade, impressão com evidência, lembrança com estatística, medo com prudência, desejo com lucidez.

Nossa visão dos fatos não é o fato.

A lucidez começa quando aceitamos essa diferença. Quando percebemos que nosso ponto de vista é apenas isso: um ponto, não o mapa inteiro. Um ângulo, não a arquitetura. Uma janela, não a paisagem completa.

No fim, viver com lucidez talvez seja aprender a desconfiar sempre de nossas certezas.

REMOTO CONTROLE

 

O pensamento também tem níveis de qualidade. 

Pode ser bom ou ruim.

Existem pensamentos ótimos e outros nem tanto. Existem até aqueles absolutamente inconfessáveis, por incontáveis motivos. E todos nós os temos, de todos os tipos.

 Assim como acontece com o ato de comer, nem sempre pensar mais significa pensar melhor ou estar mais preparado para tomar decisões. Pensar bem talvez fosse pensar quando necessário e somente o necessário, pressupondo que pudéssemos determinar o exato momento de parar de pensar. Sabemos que isso não nos é possível.

Sempre que um assunto se entranha em nossa mente, a tendência é que não consigamos desviar a atenção até estarmos mentalmente fatigados e, consequentemente, incapazes de decidir. Uma verdadeira indigestão mental por excesso de estímulo.

 Pensar demais talvez seja uma tentativa desesperada de controlar tudo aquilo que, por natureza, é imprevisível.

 Vivemos tempos líquidos, em que nada parece permanecer sólido tempo suficiente para nos oferecer segurança. Relações mudam, trabalhos mudam, valores mudam, tecnologias mudam, afetos mudam de endereço com uma velocidade que a nossa estrutura emocional nem sempre consegue acompanhar. Diante dessa instabilidade permanente, tentamos controlar os acontecimentos, as pessoas, os vínculos, as agendas, os riscos e tentamos até adivinhar o futuro nas cartas, nos búzios, no tarô e em Plutão. Mas essa tentativa é inócua, porque a vida não se submete aos nossos planos.

 Quanto mais o mundo escapa, mais a mente tenta aprisioná-lo. E, quanto mais tenta controlar, mais se frustra. Daí nasce boa parte da ansiedade contemporânea: não apenas do excesso de acontecimentos, mas da ilusão de que deveríamos ser capazes de administrá-los todos. A angústia talvez comece justamente aí, nesse atrito entre a fluidez do mundo e o nosso desejo desesperado de controlá-lo para nos sentirmos mais seguros.

Não sou um especialista no assunto, apenas um pensador veterano no uso da minha própria mente.

O bom desse tempo todo de vida é que os assuntos começam a se cruzar. Coisas que antes pareciam tão díspares, com o passar do tempo, podem se mostrar partes de uma mesma engrenagem de causas e consequências.

Uma das coisas que mais gosto de fazer é correlacionar eventos, lugares e pessoas, observando a forma como se entremeiam no enredo de nossas vidas. Há encontros que parecem nascer do acaso, mas que, vistos depois, ganham uma estranha coerência narrativa. 

Pessoas desconhecidas que se cruzam aleatoriamente no centro da cidade e, a partir dali, unem suas vidas. Do nada muda tudo. Lugares que pareciam não ter relação alguma entre si passam a fazer parte de uma mesma história. Uma cidade, uma viagem, uma conversa interrompida, uma decisão aparentemente pequena, tudo pode se transformar em ponto de passagem para acontecimentos que antes seriam inimagináveis.

 A vida tem essas interseções secretas, esses corredores invisíveis por onde o imprevisível circula sem pedir licença. Só o movimento contínuo das mudanças é capaz de propiciar certos encontros. Se tudo permanecesse fixo, se todos ficássemos imóveis dentro de nossas certezas, nada verdadeiramente inesperado nos alcançaria. Mas num mundo onde a mudança é a única certeza, essa imobilidade é impossível.

 A imprevisibilidade dos acontecimentos é o que nos força  a evoluir e a nos adaptar ao novo. É a evolução operando na nossa espécie. 

A forma como lidamos com esses imprevistos e a rapidez com que nos adaptamos às novas configurações determinam muito de nossa capacidade de vivenciar o que chamamos de felicidade: uma espécie de orgasmo existencial rápido e passageiro, mas capaz de fazer todo o resto valer a pena.

O segredo talvez seja buscar esses parênteses da vida: os momentos em que conseguimos ficar de fora, mesmo ainda estando dentro. Suspensos da própria vigilância e da inútil tentativa de controlar os acontecimentos.

 Viver tenso, viver vigilante, viver ansioso, viver com medo, viver preocupado. A gente aguenta fazer isso só por algum tempo. Depois, entra em depressão.

Edmir Saint-Clair

A LEVEZA DA IGNORÂNCIA OU A CONSCIÊNCIA DE EXISTIR?

A ideia deste texto nasceu em mim a partir de uma questão que vem surgindo nas redes: será que quem é mais ignorante vive de uma forma mais feliz, mais leve, menos atormentada? Ou será que aquele que escolhe uma vida mais intelectual, buscando conhecimento, mergulhando nas grandes questões da humanidade, filosóficas, científicas e existenciais, termina encontrando uma forma mais profunda de realizar a própria essência?

 Talvez, por trás dessa discussão, exista uma pergunta ainda maior: que tipo de consciência nasce quando alguém passa a questionar a própria vida?

 Acredito que parte dessas características pessoais tenha raízes profundas, talvez biológicas, talvez inscritas em predisposições que já trazemos desde muito cedo. Pelo que pude ler em pesquisas e textos de estudiosos do assunto, penso que já trazemos muitos desses traços desde nossa formação embrionária. É óbvio que o meio familiar e social influencia de maneira determinante no desenvolvimento dessas características. Mas, para mim, uma delas parece predominar sobre o curso que a personalidade pode tomar: a curiosidade.

 De um lado, existe a aparente leveza da ignorância. Quem não tem a curiosidade como característica inata não questiona muito o mundo ao seu redor e talvez sofra menos com certas inquietações. Não se angustia tanto com o absurdo da vida, não se perde nos labirintos da consciência, não sente o peso de perceber as contradições humanas. Há aí uma espécie de ingenuidade preservada, quase uma beleza infantil, um romantismo diante do mundo. Como se a vida tivesse de ser aceita e fim de conversa: sem atritos, sem rachaduras no espelho.

 Mas essa leveza também tem seu preço. A pessoa que não desenvolve a crítica, que não aprende a questionar aquilo que ouve, vê e recebe, corre o risco de se tornar parte da manada, sem nem saber que não tem ideias próprias. Segue ideias prontas, repete verdades emprestadas, obedece sem perceber que está obedecendo. A ignorância, nesse sentido, pode parecer confortável, mas também pode ser uma forma silenciosa de prisão.

 Do outro lado está aquele que busca conhecer. E conhecer é trocar a ilusão e as crenças pela verdade, pela realidade que se impõe. Quem se aprofunda nas perguntas fundamentais da existência perde um pouco daquele encanto simples. A lucidez cobra pedágio. Mostra a beleza, mas também mostra a crueldade. Mostra o cosmos, mas também mostra o abismo. Mostra a grandeza humana, mas também revela nossa barbárie.

 É aí que entram algumas figuras importantes desse debate. Rousseau aparece com a ideia do “bom selvagem”, sugerindo que há algo de puro no ser humano antes de ser moldado, deformado e corrompido pela sociedade. Sócrates entra como o símbolo do questionamento, aquele que transforma a dúvida em método de vida. Seu “só sei que nada sei” não é uma desistência do saber, mas uma porta aberta para a investigação permanente.

 Nietzsche também poderia aparecer nesse salão de ideias, não como alguém que oferece conforto, mas como quem arranca os tapetes da segurança moral e obriga o ser humano a olhar para o abismo. Já Albert Camus traz a noção do absurdo: a vida talvez não venha com um sentido pronto, e ainda assim precisamos vivê-la, enfrentá-la, talvez até amá-la dentro de sua falta de explicação definitiva.

 Senti uma identificação profunda com Camus e com sua visão do absurdo e da ausência de um sentido prévio para a vida. Quando sua obra me deixou clara essa inexistência de um sentido anterior, ao mesmo tempo, acendeu um holofote em minha mente: -aí está o sentido! 

O sentido de uma vida que não vem com sentido pronto talvez seja justamente este: dar sentido a ela. Um sentido pessoal, original e único. É maravilhar-se tentando entendê-la. É dar vazão à nossa curiosidade primária.

 Em algumas pessoas, essa curiosidade não aparece como simples interesse, mas como uma força interna difícil de silenciar. As perguntas não batem à porta: elas invadem a casa. Isso pode gerar sofrimento, deslocamento e inadequação, mas também pode abrir caminhos raros de criação, compreensão, profundidade e êxtase.

 Carl Sagan e Marcelo Gleiser entram como vozes desse deslumbramento científico. Eles ajudam a lembrar que conhecer não é apenas sofrer. Conhecer também é se maravilhar. A ciência pode revelar nossa pequenez cósmica, mas essa pequenez não diminui o ser humano; ao contrário, pode torná-lo mais precioso. Somos matéria do universo tentando entender o próprio universo. Há algo de profundamente poético nisso. Conhecer é descobrir que fazemos parte de um show cósmico muito maior do que imaginamos.

 Mas então surge a pergunta central: onde está a consciência no meio de tudo isso?

 A consciência parece ser o grande mistério que costura todas essas pontas. Roger Penrose pode ser chamado para essa conversa justamente por tratar a consciência como um problema ainda não resolvido pelas explicações tradicionais. As teorias tentam descrevê-la, medi-la e localizá-la, mas há sempre algo que escapa. Como provar plenamente a consciência se é a própria consciência que tenta provar a si mesma?

 É o círculo sem fim da consciência se vendo. Ela é, ao mesmo tempo, o maestro, os músicos e a música. É quem rege, quem executa e aquilo que é executado. É o palco, a plateia e o espetáculo. Uma espécie de santíssima trindade não metafísica: não como dogma religioso, mas como imagem concreta de uma experiência humana. A consciência observa, participa e cria a própria observação.

  Nesse grande show cósmico, talvez estejamos mais ligados ao todo do que conseguimos imaginar. A ignorância pode oferecer uma leveza aparente, mas essa leveza talvez venha do não enfrentamento. O conhecimento pode trazer dor, mas também traz expansão. Ele tira a ingenuidade, mas pode devolver algo maior: a possibilidade de viver com mais presença, mais responsabilidade, mais profundidade e mais intensidade.

 O ensaio que nasce dessa conversa não quer ser arrogante, nem professoral. Ele não quer colocar o intelectual acima do simples, nem transformar a ignorância em caricatura. Todos os seres humanos são importantes e igualmente necessários, cada qual com sua função fundamental e insubstituível para a sobrevivência da humanidade.

 A proposta é investigar sem preconceitos ou hierarquias, com a delicadeza e o cuidado que a questão solicita. É perguntar até que ponto a felicidade da ignorância é realmente felicidade ou apenas anestesia. E perguntar também se o sofrimento do conhecimento é apenas dor ou se pode ser uma forma mais intensa de beleza.

 No fundo, talvez a questão não seja escolher entre a leveza e a profundidade. Talvez seja entender que a vida humana se dá justamente nessa dança: entre a inocência que nos protege e a lucidez que nos revela; entre o conforto de não saber e o espanto de descobrir; entre a manada e a consciência; entre o absurdo e o deslumbramento.

 E talvez, quando a consciência perceber tudo isso, ela descubra que nunca esteve fora do espetáculo.  Na verdade, ela sempre foi, não só tudo, como também, o todo:  a música, os músicos, os instrumentos, o maestro, a dança, o salão e a festa inteira.

Edmir Saint-Clair

O QUE É A CONSCIÊNCIA?

 

“Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” José Saramago

Se tivesse que escolher uma palavra para definir a existência humana, eu não hesitaria nem um segundo: consciência.

O sentido interior da percepção: visões, sons, pensamentos, sentimentos. A presença íntima da autoconsciência, esse estar ciente de si sendo você mesmo. Esse é o “problema difícil” da consciência. A senciência interna, nosso filme interior, a fronteira final da exploração humana.

Sou fascinado por todas as diversas maneiras pelas quais a consciência pode ser examinada. Sei que ela tem importância vital e essencial em nossa condição humana. O que não sei é: o que é a consciência?

Como explorá-la?

Geralmente, filósofos falam com filósofos, neurocientistas com neurocientistas. Muitas ideias interessantes, mas nenhum avanço definitivo. A consciência não é divisível, não funciona de forma compartimentalizada e estanque. A natureza não sabe que o ser humano a fraciona para tentar entendê-la. Nela, não existe física, química, filosofia, matemática, biologia e todas as disciplinas que o ser humano inventou para tentar compreendê-la. É tudo vida, é tudo natureza, é tudo uma coisa só interagindo consigo mesma. É tudo dentro. Não existe fora.

Podemos ampliar o discurso e olhar para a consciência, incluindo o problema difícil da experiência interior, através de diferentes filtros conceituais? Romper fronteiras, emancipar nosso pensamento?

Mas como começar do zero, com o mínimo de viés? Segundo Daniel Kahneman, a mente humana está longe de ser uma observadora neutra de si mesma e do mundo. Julgamos por atalhos, confundimos coerência com verdade e frequentemente superestimamos a solidez daquilo que pensamos saber. Isso torna ainda mais difícil qualquer tentativa de partir do zero.

Definir o que é a consciência é o primeiro passo óbvio. Mas a verdade é que ainda não conseguimos passar desse ponto. Ainda sequer conseguimos dar esse primeiro passo.

Sempre fui obcecado pela consciência a vida inteira. Quem é esse outro que vive acima de mim, sem deixar de ser eu mesmo? Quem é esse que me julga? Se sou eu mesmo, por que não me impeço de fazer merdas?

Leibniz disse que, se pudéssemos expandir o cérebro até o tamanho de um salão e caminhar dentro dele, ainda assim não encontraríamos a consciência. E a ciência não conseguiu encontrá-la até agora. Vasculha o cérebro há séculos, mas não encontra onde a consciência é produzida dentro dele.

A perspectiva de Wittgenstein

Acho que o filósofo que mais buscou compreender isso foi Ludwig Wittgenstein. O ponto central de seu argumento era o chamado “argumento da linguagem privada”. Resumindo seu pensamento, a linguagem é uma ferramenta extremamente precária, e nunca se pode afirmar que as pessoas compreendem o significado das palavras da mesma forma que você. A imprecisão das palavras é um problema insolúvel até agora.

Então, como saber que outras pessoas têm consciência da mesma forma que você?

Para Wittgenstein, a consciência não é uma “coisa gasosa interna” à qual você tem acesso privilegiado, mas que é problemática para todos os outros. Ela é tão problemática para você próprio quanto para os outros.

Só podemos observar e tentar entender melhor o que é a consciência através da própria consciência, e cada um só pode estudar a sua. Esse é o problema mais difícil. O grande escritor e, a meu ver, filósofo, José Saramago tem uma excelente e perspicaz percepção desse problema ao enunciar: “Para ver a ilha, temos que sair da ilha.” 

A resposta que mudará o rumo da humanidade e  nos dará um novo caminho para tentarmos sair desse beco sem saída no qual nos encontramos, é a que nos oferecer uma maneira confiável de investigar de forma isenta e objetiva, esse  fenômeno tão subjetivo. 

O problema é grande, difícil e até agora, não temos nem ideia se, realmente, haverá uma solução.

Sou um otimista. Acredito que o mesmo progresso tecnológico que nos permite hoje observar um cérebro funcionando em tempo real, fato impensável nos tempos de Freud, nos levará, um dia, a um conhecimento cada vez mais próximo da realidade do que acontece em nossos cérebros. E então surgirão respostas que nos levarão a novas perguntas, que nos levarão a novas respostas e a novas perguntas. E assim seguirá caminhando a humanidade.

 Edmir Saint-Clair

 

TRANSCENDER

 

Envolver, envolver-se e ser envolvido,

Misturar-se, fazer parte, somar-se, dividir-se.

Nada mais abstrato que romper os limites do ser.

Impossível, diz a ciência,

mas não a sapiência, que nem tudo pode resolver.

Mas nos resolvemos no nosso desejo de pertencer,

um dos mais abstratos mistérios do ser.

A transcendência leve, etérea, intocável,

além do mundano banal,

tem que ser consciente para tornar-se mistério.

Por isso, me envolvo, envolvo e sou envolvido,

e me diluo no todo.

Ainda não, mas irei,

me fundindo à maior das ciências,

sendo tudo e nada ao mesmo tempo,

sendo sempre e nunca, eternamente.

Edmir Saint-Clair