ORIENTADOR LITERÁRIO

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COERÊNCIA: A INTIMIDADE CONSIGO MESMO

 

"Seja amigo íntimo de si mesmo 

e nunca mais se sentirá sozinho." - Edmir Saint-Clair

 

Existe uma pergunta que ninguém faz em voz alta. Mas todo mundo carrega.

Estou sendo quem eu digo que sou?

É uma pergunta simples. E, muitas vezes, devastadora.

Vivemos na era da performance. Nunca foi tão fácil construir uma versão de si mesmo — e nunca foi tão tentador confundi-la com a versão real. O Instagram tem filtro para tudo: para a pele, para a luz, para a vida. O que não tem filtro é a nossa própria consciência quando deitamos no travesseiro.

A busca ansiosa por likes virou o termômetro afetivo de uma geração inteira. A foto só foi boa se engajou. A opinião só vale se viralizou. A conquista só existe se foi postada. Aos poucos, sem que a gente perceba, o centro de gravidade se desloca — saímos de nós mesmos e passamos a orbitar a aprovação dos outros. De outros que, na maioria das vezes, estão fazendo exatamente a mesma coisa.

É um espelho em frente ao outro. Infinito. E vazio.

Os filósofos já tinham um nome para isso. Muito antes do Instagram existir. Só que agora ganhou uma tela, alcance mundial e um algoritmo.

O filósofo dinamarquês Kierkegaard chamava isso de estágio estético — a vida vivida para a superfície, sem compromisso real com nada. Jean Paul Sartre tinha um nome mais duro: má-fé — a arte de fingir que não há escolha, quando na verdade nossas escolhas estão sendo feitas a cada momento da vida e, no fundo, temos plena consciência disso. Atualmente, isso tem uma outra expressão que talvez a defina melhor: desonestidade intelectual.

Postar uma versão editada de si mesmo não é crime. Mas acreditar nela é o grande problema, que pode ter um preço bem alto.

Quando a distância entre quem você é e quem você finge ser cresce demais, surge um mal-estar que a psicologia batizou de síndrome do impostor — aquela sensação persistente de que você não merece o lugar que ocupa, de que é uma fraude prestes a ser descoberta, de que qualquer dia alguém vai perceber que não existe nada embaixo da máscara que usamos.

Nas redes sociais, esse sentimento encontrou o ambiente perfeito para prosperar. Você constrói um personagem admirável — e passa a ter medo de não estar à altura dele. A conquista foi real, mas a versão postada foi maior. O argumento foi válido, mas veio acompanhado de uma pose que não era sua. O sorriso era verdadeiro — mas o contexto, não.

O personagem cresce. E você encolhe.

Porque a incoerência não gera culpa imediata. Ela trabalha devagar, por baixo, como uma infiltração invisível que vai corroendo as estruturas da personalidade. Um dia você percebe que não sabe mais o que pensa de verdade — ou se o que posta que pensa é fruto apenas do que funciona bem nas redes. Não sabe do que gosta de verdade — ou se o que posta que gosta é fruto do personagem que criou para combinar com a estética do perfil no Instagram. Não sabe quem é realmente você — e quem é o personagem criado para ter mais seguidores. Chega a um ponto em que você pode se tornar um estranho para si mesmo.

A identidade vai cedendo lugar ao personagem. E o personagem não descansa nunca — porque depende de audiência para existir.

O atrito entre quem você é e quem você aparenta ser corrói por dentro. A autoestima afunda. As decisões ficam mais difíceis — porque quem não confia em si mesmo transforma cada escolha numa armadilha. E uma identidade enfraquecida é terreno fértil para ansiedade, depressão e todos os outros distúrbios mentais que a sociedade atual padece.

A lucidez intelectual e o autoconhecimento são o único caminho para fugir dessa tendência humana de buscar um culpado que não seja nós mesmos. Fica fácil culpar o Instagram, o Facebook e outras redes. Mas elas não criam personagens — elas apenas oferecem o palco. Quem decide subir nele, o que vestir e o que representar somos cada um de nós. Somos, sempre, os únicos responsáveis por quem conseguimos ser, apesar dos pesares da vida.

A coerência é o antídoto.

É uma virtude autêntica e verdadeira que não precisa de plateia nem de métrica de engajamento. É aquela coisa pequena feita da forma certa quando ninguém está olhando — uma decisão tomada de madrugada, sem testemunha, sem like, sem story.

Quem vive com coerência não precisa lembrar o que disse ontem. Não precisa administrar versões. Não acorda com medo de ser descoberto — porque não há nada a esconder. O impostor some quando o personagem e a pessoa finalmente coincidem. É quando você assume o comando de decidir para si mesmo quem você é.

Quando deitamos no travesseiro, é a nós mesmos que temos de prestar contas. Não existe júri, não existe recurso, não existe boa impressão a causar. Só você e o seu próprio julgamento sobre o que você fez — com o que tinha, onde estava e sendo quem é em sua essência maior.

Nossa maior contribuição para o mundo — e para nosso orgulho próprio — é agirmos da forma original, única e intransferível que a nossa natureza nos dotou.

A coerência é a forma mais corajosa — e íntima — de se amar.

Edmir Saint-Clair

O MEDO DA MUDANÇA


"A mudança é a única coisa permanente." Heráclito (500 A.C.)".

"...e a incerteza, a única certeza".  Zigmund Bauman - (2.500 anos depois).


O medo está nos rondando o tempo todo, nos fazendo engolir sapos maiores que a boca. Sem que tenhamos consciência de quais são seus gatilhos, aparece, de repente, tentando encaixar as nossas atitudes e, pior, as dos outros também, em modelos que nem sabemos se servem aos nossos anseios. Tudo para termos a sensação de segurança.

Quanto mais previsível, quanto menos mudanças na rotina, mais seguro o ser humano se imagina. A, estranhamente, chamada zona de conforto, de conforto não tem nada. O nome certo é zona de tédio, uma ilusão maléfica causada pelo medo que a simples ideia da mudança provoca. Mas, as mudanças ocorrem o tempo todo, percebamos ou não. Não dependem da nossa vontade.

O medo da mudança é uma força poderosa e vive escondido nas pequenas coisas e é, na maioria das vezes, o grande responsável pelos nossos maiores sofrimentos.

Ouvi de um amigo terapeuta algo que me ficou na cabeça e que os anos só reforçaram a verdade que traduz:

− "O ser humano se sente seguro vivendo uma rotina previsível, mesmo que isso signifique viver em péssimas situações, aparentemente insustentáveis, se vistas por alguém de fora mas, que ele já conhece e está acostumado. É péssimo, mas é um péssimo que ele conhece. Essa força é tão poderosa que a simples ideia de romper com a situação e partir para algo novo pode causar pânico em grande parte das pessoas. O ser humano prefere ficar no sofrimento conhecido a arriscar qualquer outra coisa que ele não conheça.”

Não raras vezes, nos deparamos com essa realidade em vários aspectos. Nas relações familiares, profissionais, amorosas, fraternas e quaisquer outras que se apresentem.

Admiro as pessoas que conseguem se desvencilhar rápido de situações incômodas. É claro que tudo tem sua peculiaridade e nada pode ser posto numa mesma sacola. Mas, existe uma linha, que pode ser facilmente perceptível e nem um pouco tênue, de onde, a partir dali, qualquer um tem certeza do dano que aquela situação está trazendo a um, ou a quantos mais estiverem envolvidos.

Seja em que âmbito for, chega um momento em que o desgaste é tão profundo e incomodo que a mudança é absolutamente inevitável e urgente. E, isso sempre gera insegurança, que é outro nome para o medo do novo.

Nas relações amorosas isso é ainda mais nítido. Do início da descida até se esborrachar todo no fim, a gente vem se ralando inteiro, ladeira abaixo. E, não raras vezes, essa ladeira dura anos. Imagine quanta ralação, quantos machucados daqueles bem doloridos poderiam ser evitados.

E, todos sabemos, eles podem doer demais. O que esquecemos é que podemos, a qualquer momento, interromper essa descida ladeira abaixo e evitar sofrermos mais machucados. Saber interrompê-la antes que os traumas se aprofundem demais é o que decide como estaremos preparados para nossos próximos relacionamentos. Essa decisão é das mais sérias com as quais nos deparamos na vida: a hora de interromper definitivamente uma situação. 

Há um momento que temos que dar um fim a uma situação de sofrimento e não olhar mais para trás. Por uma questão de sobrevivência e sanidade.

Saber a hora de parar de sofrer é fundamental para não perder a crença em si mesmo. É necessário acreditar que podemos não só produzir como tomar conta da nossa própria felicidade. E, antes, precisamos crer que somos capazes de nos proteger, de cuidar de nós mesmos, adequadamente. Porque, quantos mais machucados estivermos, mais tempo esses traumas levarão para cicatrizar. Isso significa que precisaremos de mais tempo para nos recompormos até estarmos prontos para uma nova relação. E a vida não espera. O tempo passa rápido. E, dependendo da intensidade e quantidade dos eventos traumáticos, e dos recursos disponíveis para enfrentá-los (terapias e redes de apoio), essa recomposição pode ser bastante demorada.

É importante sermos sinceros ao nos respondermos às nossas próprias perguntas. Precisamos saber pelo menos o que pensamos, de verdade, sobre nossos próprios assuntos e sentimentos. Precisamos estipular nossos limites. A Tolerância é necessária, sem ela não se vive em sociedade, não se aprende e nem se evolui. Mas, a partir de um tênue limite, passa a ser submissão, conformismo e covardia.

Vivemos como se houvesse um modo certo e outro errado de realizarmos nossa vida. Como se houvesse um gabarito. Não há. Ninguém nasce com manual ou destino traçado. Tudo que fazemos é inédito. Algumas vezes, é imprevisível, simplesmente porque ninguém fez daquele jeito antes. Do seu jeito, original e único.

Mudar dá medo. Principalmente, quando a decisão de mudança envolve coisas básicas como mudar de casa, ficar sozinho, trocar um emprego medíocre, mas que paga as contas, por um projeto que, se der certo, vai te dar a vida que você deseja (isso não está ligado a dinheiro necessariamente!). Mas que, também, pode dar errado. 

E daí? Tudo pode dar errado, principalmente, o que está dando certo. Já que o que está dando errado, se mudar, só pode mudar para dar certo. 

Se der errado é porque não mudou. Então, vai ter que mudar de novo. Até dar certo. E, pode ter certeza, uma das coisas que mais ajudam a persistir até que dê certo, é o bom humor. Sem ele a vida não tem graça. É preciso sonhar em ser feliz, pelo menos...

Ou seja, veja-se por que ângulo for, é preciso estar aberto à mudança sempre. Inclusive, para que o que já está dando certo, continue dando.

Edmir Saint-Clair

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VIÉS: NOSSO PONTO DE VISTA

Nossa visão do fato não é o fato.

Há pessoas que entram num bar convencidas de que escolheram a mesa, a bebida, a companhia e até a opinião que levarão para casa. É bonito. Quase comovente. A razão humana gosta de posar para foto.

Mas, na verdade, a grande maioria das vezes não escolhemos nenhum daqueles ítens, estamos apenas repetindo o que já estamos acostumados a fazer. E, sentamos achando que decidimos. Nas conversas repetidas, com as mesmas pessoas de sempre, muitas vezes, o que realmente fazemos é apenas reagir com o vocabulário pré-estabelecido, sem nem prestar atenção no que está sendo falado. É o piloto automático em sua atuação diária e rotineira. Nesse momento nada é racional, é nessa hora que nossos vieses assumem o controle pleno de toda a situação.

No bar, por exemplo, alguém comenta um assalto que aconteceu no bairro. Em poucos minutos, o clima na mesa é como se a cidade inteira estivesse à beira de uma guerra civil. As pessoas se inflamam. Não importa a estatística, o horário, a exceção, o contexto. A notícia mais recente sempre ocupa o lugar da realidade inteira. É o viés da disponibilidade está servido com o chope. O que está mais vivo na memória parece mais verdadeiro, mais frequente, mais urgente. A mente humana transforma lembrança em prova, susto em método, manchete em prioridade.

No encontro social, chega um desconhecido bem vestido, perfume caro, voz calma, olhar administrado. Antes mesmo que diga qualquer coisa relevante, já lhe emprestamos competência, equilíbrio, talvez caráter. É o efeito halo. Uma qualidade ilumina todas as outras, mesmo as que não existem. A boa aparência passa a funcionar como currículo moral. A simpatia vira evidência de qualidades. A elegância, de honestidade. Já o sujeito desajeitado, que derruba o guardanapo, é condenado antes do julgamento. A vida social é um tribunal de primeiras impressões, com toga, canapé e sem apelação.

No trabalho, a coisa piora, porque ali os vieses usam crachá.

Um chefe lança um número inicial numa reunião. “Acho que esse projeto não deve passar de cinquenta mil.” Pronto. A âncora foi jogada. A partir dali, qualquer debate girará em torno dela, mesmo que ninguém saiba de onde aquele número veio. Pode ter vindo de uma planilha, de uma intuição, de um sonho ruim, de uma conversa no elevador, das letras, das conchas, do tarô ou de Plutão retrógrado. Ainda assim, o primeiro valor contamina todos os outros. Chamam isso de planejamento. Às vezes, é apenas superstição com PowerPoint.

Nas amizades, o viés de confirmação trabalha com uma dedicação religiosa. Escolhemos sinais que confirmem aquilo que já decidimos sentir. Se estamos magoados, cada silêncio vira desprezo. Se estamos encantados, cada descuido vira distração charmosa. A mente não procura a verdade; procura testemunhas para a narrativa que já escreveu. E, quando encontra, exibe como quem encontrou um documento histórico dentro da própria gaveta.

Há amigos que deixam de ser amigos não por um fato, mas pela interpretação de um fato. Uma mensagem não respondida. Um convite esquecido. Um comentário atravessado. O acontecimento, em si, é pequeno; o viés, porém, sabe inflar pequenezas com rara competência. Em pouco tempo, aquilo que era apenas um atraso vira abandono. Aquilo que era cansaço vira desprezo. Aquilo que era distração vira sentença. E aquilo que era amizade vira vazio.

Na vida amorosa, então, os vieses entram com o pé na porta, sem pedir licença, abrem a geladeira, mexem nas memórias e ainda criticam a decoração.

A representatividade faz alguém concluir, depois de dois encontros, que o outro pertence a uma categoria já conhecida: os indisponíveis, os narcisistas, os inseguros, os salvadores, os perigosos, os que somem, os que voltam, os que dizem “vamos marcar” e jamais marcam. A pessoa real desaparece atrás do tipo. Julgamos o outro não pelo que ele é, mas pelo personagem que ele nos lembra. Às vezes, não nos relacionamos com alguém, mas com um arquivo antigo que esquecemos aberto.

A aversão à perda também governa muitos amores. Não ficamos apenas porque amamos; às vezes ficamos porque perder parece doer mais do que permanecer. A perda tem voz alta. O ganho é mais educado. A possibilidade de recomeçar quase sempre chega vestida de ameaça. Assim, muita gente chama de amor o medo de abandonar um investimento emocional antigo. Não quer a pessoa; quer não perder a versão de si que construiu ao lado dela.

O enquadramento da foto muda tudo. Dizer “terminamos porque já não havia amor” é uma coisa. Dizer “tivemos coragem de não falsificar a permanência” é outra. O fato pode ser o mesmo, mas a moldura reorganiza a dor. Na vida, muitas vezes não mudamos os acontecimentos; mudamos a legenda. E, com uma legenda melhor, suportamos quase qualquer fotografia.

Depois vem o viés retrospectivo, esse profeta atrasado. Quando a relação acaba, sempre aparece alguém para dizer: “Eu já sabia.” Sabia nada. Suspeitava, talvez. Torcia, talvez. Reorganizou os fatos depois do incêndio e agora desfila com um balde d’água vazio na mão. Depois que tudo acontece, a mente costura uma lógica aleatória e nós a aceitamos como verdade.

Também há o excesso de confiança, esse pequeno ditador íntimo. Achamos que conhecemos os outros, que sabemos onde determinada escolha vai dar, que desta vez não seremos enganados, que nossa intuição é afiada, que nossa análise é madura, que nosso coração, depois de tantos acidentes, aprendeu a dirigir. É nossa pequena redenção.

Daniel Kahneman nos oferece, no fundo, uma humilhação necessária: não somos tão lúcidos quanto imaginamos. Dentro de nós há um sistema rápido, automático e intuitivo, que decide antes que a razão chegue. Depois, entra o pensamento lento, mais analítico, mais cuidadoso, mas frequentemente preguiçoso. Ele chega tarde, olha a confusão feita e cria uma justificativa elegante.

Talvez seja isso o que chamamos de opinião: uma intuição antiga usando roupa nova.

O problema não está em termos vieses. Eles fazem parte da arquitetura da mente. Foram úteis em algum momento remoto, quando decidir rápido podia salvar a vida. O problema começa quando confundimos rapidez com verdade, impressão com evidência, lembrança com estatística, medo com prudência, desejo com lucidez.

Nossa visão dos fatos não é o fato.

A lucidez começa quando aceitamos essa diferença. Quando percebemos que nosso ponto de vista é apenas isso: um ponto, não o mapa inteiro. Um ângulo, não a arquitetura. Uma janela, não a paisagem completa.

No fim, viver com lucidez talvez seja aprender a desconfiar sempre de nossas certezas.

Edmir Saint-Clair


REMOTO CONTROLE

 

O pensamento também tem níveis de qualidade. 

Pode ser bom ou ruim.

Existem pensamentos ótimos e outros nem tanto. Existem até aqueles absolutamente inconfessáveis, por incontáveis motivos. E todos nós os temos, de todos os tipos.

 Assim como acontece com o ato de comer, nem sempre pensar mais significa pensar melhor ou estar mais preparado para tomar decisões. Pensar bem talvez fosse pensar quando necessário e somente o necessário, pressupondo que pudéssemos determinar o exato momento de parar de pensar. Sabemos que isso não nos é possível.

Sempre que um assunto se entranha em nossa mente, a tendência é que não consigamos desviar a atenção até estarmos mentalmente fatigados e, consequentemente, incapazes de decidir. Uma verdadeira indigestão mental por excesso de estímulo.

 Pensar demais talvez seja uma tentativa desesperada de controlar tudo aquilo que, por natureza, é imprevisível.

 Vivemos tempos líquidos, em que nada parece permanecer sólido tempo suficiente para nos oferecer segurança. Relações mudam, trabalhos mudam, valores mudam, tecnologias mudam, afetos mudam de endereço com uma velocidade que a nossa estrutura emocional nem sempre consegue acompanhar. Diante dessa instabilidade permanente, tentamos controlar os acontecimentos, as pessoas, os vínculos, as agendas, os riscos e tentamos até adivinhar o futuro nas cartas, nos búzios, no tarô e em Plutão. Mas essa tentativa é inócua, porque a vida não se submete aos nossos planos.

 Quanto mais o mundo escapa, mais a mente tenta aprisioná-lo. E, quanto mais tenta controlar, mais se frustra. Daí nasce boa parte da ansiedade contemporânea: não apenas do excesso de acontecimentos, mas da ilusão de que deveríamos ser capazes de administrá-los todos. A angústia talvez comece justamente aí, nesse atrito entre a fluidez do mundo e o nosso desejo desesperado de controlá-lo para nos sentirmos mais seguros.

Não sou um especialista no assunto, apenas um pensador veterano no uso da minha própria mente.

O bom desse tempo todo de vida é que os assuntos começam a se cruzar. Coisas que antes pareciam tão díspares, com o passar do tempo, podem se mostrar partes de uma mesma engrenagem de causas e consequências.

Uma das coisas que mais gosto de fazer é correlacionar eventos, lugares e pessoas, observando a forma como se entremeiam no enredo de nossas vidas. Há encontros que parecem nascer do acaso, mas que, vistos depois, ganham uma estranha coerência narrativa. 

Pessoas desconhecidas que se cruzam aleatoriamente no centro da cidade e, a partir dali, unem suas vidas. Do nada muda tudo. Lugares que pareciam não ter relação alguma entre si passam a fazer parte de uma mesma história. Uma cidade, uma viagem, uma conversa interrompida, uma decisão aparentemente pequena, tudo pode se transformar em ponto de passagem para acontecimentos que antes seriam inimagináveis.

 A vida tem essas interseções secretas, esses corredores invisíveis por onde o imprevisível circula sem pedir licença. Só o movimento contínuo das mudanças é capaz de propiciar certos encontros. Se tudo permanecesse fixo, se todos ficássemos imóveis dentro de nossas certezas, nada verdadeiramente inesperado nos alcançaria. Mas num mundo onde a mudança é a única certeza, essa imobilidade é impossível.

 A imprevisibilidade dos acontecimentos é o que nos força  a evoluir e a nos adaptar ao novo. É a evolução operando na nossa espécie. 

A forma como lidamos com esses imprevistos e a rapidez com que nos adaptamos às novas configurações determinam muito de nossa capacidade de vivenciar o que chamamos de felicidade: uma espécie de orgasmo existencial rápido e passageiro, mas capaz de fazer todo o resto valer a pena.

O segredo talvez seja buscar esses parênteses da vida: os momentos em que conseguimos ficar de fora, mesmo ainda estando dentro. Suspensos da própria vigilância e da inútil tentativa de controlar os acontecimentos.

 Viver tenso, viver vigilante, viver ansioso, viver com medo, viver preocupado. A gente aguenta fazer isso só por algum tempo. Depois, entra em depressão.

Edmir Saint-Clair

A LEVEZA DA IGNORÂNCIA OU A CONSCIÊNCIA DE EXISTIR?

A ideia deste texto nasceu em mim a partir de uma questão que vem surgindo nas redes: será que quem é mais ignorante vive de uma forma mais feliz, mais leve, menos atormentada? Ou será que aquele que escolhe uma vida mais intelectual, buscando conhecimento, mergulhando nas grandes questões da humanidade, filosóficas, científicas e existenciais, termina encontrando uma forma mais profunda de realizar a própria essência?

 Talvez, por trás dessa discussão, exista uma pergunta ainda maior: que tipo de consciência nasce quando alguém passa a questionar a própria vida?

 Acredito que parte dessas características pessoais tenha raízes profundas, talvez biológicas, talvez inscritas em predisposições que já trazemos desde muito cedo. Pelo que pude ler em pesquisas e textos de estudiosos do assunto, penso que já trazemos muitos desses traços desde nossa formação embrionária. É óbvio que o meio familiar e social influencia de maneira determinante no desenvolvimento dessas características. Mas, para mim, uma delas parece predominar sobre o curso que a personalidade pode tomar: a curiosidade.

 De um lado, existe a aparente leveza da ignorância. Quem não tem a curiosidade como característica inata não questiona muito o mundo ao seu redor e talvez sofra menos com certas inquietações. Não se angustia tanto com o absurdo da vida, não se perde nos labirintos da consciência, não sente o peso de perceber as contradições humanas. Há aí uma espécie de ingenuidade preservada, quase uma beleza infantil, um romantismo diante do mundo. Como se a vida tivesse de ser aceita e fim de conversa: sem atritos, sem rachaduras no espelho.

 Mas essa leveza também tem seu preço. A pessoa que não desenvolve a crítica, que não aprende a questionar aquilo que ouve, vê e recebe, corre o risco de se tornar parte da manada, sem nem saber que não tem ideias próprias. Segue ideias prontas, repete verdades emprestadas, obedece sem perceber que está obedecendo. A ignorância, nesse sentido, pode parecer confortável, mas também pode ser uma forma silenciosa de prisão.

 Do outro lado está aquele que busca conhecer. E conhecer é trocar a ilusão e as crenças pela verdade, pela realidade que se impõe. Quem se aprofunda nas perguntas fundamentais da existência perde um pouco daquele encanto simples. A lucidez cobra pedágio. Mostra a beleza, mas também mostra a crueldade. Mostra o cosmos, mas também mostra o abismo. Mostra a grandeza humana, mas também revela nossa barbárie.

 É aí que entram algumas figuras importantes desse debate. Rousseau aparece com a ideia do “bom selvagem”, sugerindo que há algo de puro no ser humano antes de ser moldado, deformado e corrompido pela sociedade. Sócrates entra como o símbolo do questionamento, aquele que transforma a dúvida em método de vida. Seu “só sei que nada sei” não é uma desistência do saber, mas uma porta aberta para a investigação permanente.

 Nietzsche também poderia aparecer nesse salão de ideias, não como alguém que oferece conforto, mas como quem arranca os tapetes da segurança moral e obriga o ser humano a olhar para o abismo. Já Albert Camus traz a noção do absurdo: a vida talvez não venha com um sentido pronto, e ainda assim precisamos vivê-la, enfrentá-la, talvez até amá-la dentro de sua falta de explicação definitiva.

 Senti uma identificação profunda com Camus e com sua visão do absurdo e da ausência de um sentido prévio para a vida. Quando sua obra me deixou clara essa inexistência de um sentido anterior, ao mesmo tempo, acendeu um holofote em minha mente: -aí está o sentido! 

O sentido de uma vida que não vem com sentido pronto talvez seja justamente este: dar sentido a ela. Um sentido pessoal, original e único. É maravilhar-se tentando entendê-la. É dar vazão à nossa curiosidade primária.

 Em algumas pessoas, essa curiosidade não aparece como simples interesse, mas como uma força interna difícil de silenciar. As perguntas não batem à porta: elas invadem a casa. Isso pode gerar sofrimento, deslocamento e inadequação, mas também pode abrir caminhos raros de criação, compreensão, profundidade e êxtase.

 Carl Sagan e Marcelo Gleiser entram como vozes desse deslumbramento científico. Eles ajudam a lembrar que conhecer não é apenas sofrer. Conhecer também é se maravilhar. A ciência pode revelar nossa pequenez cósmica, mas essa pequenez não diminui o ser humano; ao contrário, pode torná-lo mais precioso. Somos matéria do universo tentando entender o próprio universo. Há algo de profundamente poético nisso. Conhecer é descobrir que fazemos parte de um show cósmico muito maior do que imaginamos.

 Mas então surge a pergunta central: onde está a consciência no meio de tudo isso?

 A consciência parece ser o grande mistério que costura todas essas pontas. Roger Penrose pode ser chamado para essa conversa justamente por tratar a consciência como um problema ainda não resolvido pelas explicações tradicionais. As teorias tentam descrevê-la, medi-la e localizá-la, mas há sempre algo que escapa. Como provar plenamente a consciência se é a própria consciência que tenta provar a si mesma?

 É o círculo sem fim da consciência se vendo. Ela é, ao mesmo tempo, o maestro, os músicos e a música. É quem rege, quem executa e aquilo que é executado. É o palco, a plateia e o espetáculo. Uma espécie de santíssima trindade não metafísica: não como dogma religioso, mas como imagem concreta de uma experiência humana. A consciência observa, participa e cria a própria observação.

  Nesse grande show cósmico, talvez estejamos mais ligados ao todo do que conseguimos imaginar. A ignorância pode oferecer uma leveza aparente, mas essa leveza talvez venha do não enfrentamento. O conhecimento pode trazer dor, mas também traz expansão. Ele tira a ingenuidade, mas pode devolver algo maior: a possibilidade de viver com mais presença, mais responsabilidade, mais profundidade e mais intensidade.

 O ensaio que nasce dessa conversa não quer ser arrogante, nem professoral. Ele não quer colocar o intelectual acima do simples, nem transformar a ignorância em caricatura. Todos os seres humanos são importantes e igualmente necessários, cada qual com sua função fundamental e insubstituível para a sobrevivência da humanidade.

 A proposta é investigar sem preconceitos ou hierarquias, com a delicadeza e o cuidado que a questão solicita. É perguntar até que ponto a felicidade da ignorância é realmente felicidade ou apenas anestesia. E perguntar também se o sofrimento do conhecimento é apenas dor ou se pode ser uma forma mais intensa de beleza.

 No fundo, talvez a questão não seja escolher entre a leveza e a profundidade. Talvez seja entender que a vida humana se dá justamente nessa dança: entre a inocência que nos protege e a lucidez que nos revela; entre o conforto de não saber e o espanto de descobrir; entre a manada e a consciência; entre o absurdo e o deslumbramento.

 E talvez, quando a consciência perceber tudo isso, ela descubra que nunca esteve fora do espetáculo.  Na verdade, ela sempre foi, não só tudo, como também, o todo:  a música, os músicos, os instrumentos, o maestro, a dança, o salão e a festa inteira.

Edmir Saint-Clair