“Adoramos
achar que controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no
controle.” — Edmir
Saint-Clair
Você
não tem culpa de nada. Absolutamente nada. Nem daquele palavrão solto no
trânsito, nem daquele amor que naufragou do jeito mais desastrado possível.
A
primeira reação a uma frase dessas é um misto de alívio e desconfiança. A gente
não costuma perceber quando age no automático e quando age de caso pensado — e
a diferença entre as duas coisas é bem menor do que gostamos de admitir.
Fomos
criados sobre trilhos que alguém colocou muito antes de nascermos. Assumir a
responsabilidade moral por cada mínimo gesto é o que se espera de todo mundo.
Ninguém fala isso em voz alta, mas todo mundo entende: é sinal de maturidade,
de caráter, de gente que presta. Como se algum ser humano tivesse mesmo a
capacidade de fazer as coisas acontecerem seguindo uma receita de bolo, como se
toda decisão fosse fruto de uma resolução consciente. A gente sabe que não é
assim. Todos temos pilotos automáticos que assumem o comando sem pedir licença.
No meio da rua, sem querer, de repente, nos pegamos fuzilando com o olhar
alguém que só esbarrou na gente sem querer.
Gostamos
de achar que estamos sempre no comando de nós mesmos. Adoramos achar que
controlamos. Não interessa o quê — desde que sejamos nós no controle.
Por
isso a gente bate no peito, em tom dramático, e diz: a culpa foi minha.
Tem
uma vaidade inconfessável nessa frase. Um prazer quase sádico em se colocar no
centro do universo. A culpa, no fim das contas, é talvez o maior celeiro de
grandeza que a espécie humana já inventou para si mesma.
Pensa
bem na prepotência dessa culpa.
Para
você ser o grande vilão da própria história, o arquiteto do próprio fracasso,
você precisaria ter o poder de parar o tempo, isolar a física, a química e a
biologia do seu corpo, sair de dentro da sua própria história e dizer: eu, com
minha mente soberana, escolho agora tomar a pior decisão possível.
Sério
isso? Você acha mesmo que o cosmos estava prendendo a respiração à espera do
seu movimento? Claro que não. É tão óbvio que chega a ser embaraçoso ter que
dizer.
Ainda
assim, tem uma indústria inteira vivendo de vender exatamente essa
grandiosidade que o cosmos nunca ofereceu — e quanto maior a insignificância
real, mais caro se paga pela ilusão do contrário.
Existe
um gênero de livro — e você já leu um, ou fingiu que não precisava — que
promete exatamente isso: o mapa da mina, o segredo, o método. A ideia vendida é
sempre a mesma, só troca de embalagem: você é o arquiteto da sua realidade,
você atrai o que pensa, você tem dentro de si o poder de reprogramar seus
resultados. É uma proposta linda de se ouvir e, ao mesmo tempo, uma fraude com
ares de ciência. Porque para vender esse controle, é preciso primeiro vender a culpa
— e a culpa, nesse comércio, é só a entrada. Se você pode manifestar a riqueza,
também pode ter manifestado a falência. Se pode atrair o amor, também atraiu o
abandono. O produto e o problema vêm no mesmo pacote, e você paga pelos dois.
O
curioso é que essa indústria constrói castelo sobre pressupostos sem qualquer
embasamento empírico e, muito menos, qualquer tipo de seriedade de propósito.
Porque
antes de perguntar se você controla seus atos, teria que se perguntar o que é,
afinal, esse que pergunta. Esse você que observa e julga você mesmo. A
consciência — essa sensação de estar aqui, de ser alguém por dentro, produzida
por um punhado de neurônios disparando no escuro — é o maior mistério que
existe. Não porque escape à matéria: ela é matéria, de ponta a ponta, tanto
quanto uma pedra ou um rim. O mistério é que ainda não sabemos explicar como,
exatamente, esse amontoado de células produz a sensação de ser alguém, nem por
que produz sensação nenhuma em vez de escuridão pura. É sobre esse chão
nebuloso, essa lacuna do conhecimento — não da natureza —, que o livre-arbítrio
precisaria se apoiar para ser real. E é justamente aí que a autoajuda finge ter
erguido um mapa. Vende certeza sobre o único território em que nem a ciência
ousa afirmar qualquer coisa. Chamam isso de A Pergunta Difícil: o que é a
consciência, aquele que me observa sendo eu mesmo, ao mesmo tempo.
O
ser humano sempre gostou de se imaginar dotado de livre-arbítrio, o escritor do
roteiro de sua própria vida. Talvez a gente seja pouco mais do que um figurante
nervoso jogado num set sem roteiro — mas certamente bem menos do que o diretor
que nossa vaidade insiste em bancar.
A
ciência já sabe muita coisa sobre o que empurra a nossa vontade sem que a gente
perceba — a biologia, a genética, a neurociência —, mas o que a vontade é, lá
no fundo, continua um território tão nebuloso quanto no tempo em que se
explicava tudo por espírito. Temos uma programação genética e uma configuração
neural que empurra a mão para um lado ou para o outro antes que qualquer
"eu" tenha tempo de opinar. Quando achamos que escolhemos, muitas
vezes já é tarde: o corpo decidiu primeiro, e a mente só assina embaixo, como
quem carimba um documento que já estava pronto.
Cada
miséria, cada glória, é o resultado de uma alquimia maluca — substâncias
estranhas, temperadas com pitadas da sua própria história, numa dosagem que
você não escolhe e cujos ingredientes você nem desconfia que existem. Aquela
mensagem meio desaforada que você mandou para a sua ex talvez não tenha sido
uma decisão fria e soberana. Era só uma flutuação de glicose, uma queda de
serotonina porque o chefe te olhou torto, acionando o mesmo mecanismo de defesa
que seus tataravós desenvolveram na savana para fugir de um dente-de-sabre —
tudo isso fervendo numa sopa genética que seus pais passaram para você numa
noite de sábado qualquer, entre uma troca de fluidos e outra.
Mas
onde é que fica o eu, no meio dessa história?
Onde
está a pessoinha sentada numa poltrona atrás dos seus olhos, atordoada diante
de um painel cheio de botões, puxando loucamente as alavancas da decisão?
Aqui
é onde o conhecimento humano para, sem que isso signifique nada além do próprio
limite. Somos máquina biológica — máquina angustiada que paga imposto e faz
terapia —, isso eu não questiono. A dúvida não é se existe uma causa: existe
sempre, física, concreta, ainda que a gente nunca chegue a mapear todos os seus
fios. A dúvida é se essa causa, no caso específico da consciência, é algo que
algum dia vamos conseguir descrever por inteiro — e por enquanto ninguém
descreveu. Não tenho essa resposta. Ninguém tem. E talvez seja exatamente por
não ter que a culpa consiga se instalar tão à vontade: ela precisa da certeza
que ninguém possui para se sustentar. Onde deveria haver prova de que você
podia mesmo ter agido diferente, há só a mesma névoa espessa de sempre — névoa
de quem ainda não enxergou, nunca de algo que escapa à física.
Se
o chão do livre-arbítrio é essa névoa, então a culpa que construímos em cima
dele fica em pé sobre o nada. Torturar-se por escolhas passadas não é virtude —
é um tique nervoso, um gesto compulsivo e adoecido, apostando com convicção
total num território onde ninguém, honestamente, pode apostar nada.
A
gente se agarra à culpa porque a alternativa é desesperadora. Aceitar que
talvez a vida seja um cassino onde nem sabemos se os dados estão viciados fere
o nosso orgulho mais fundo. Preferimos mil vezes ser o monstro culpado da
própria tragédia a admitir que somos passageiros — talvez sem escolha, talvez
com um resto de escolha que nunca vamos conseguir provar — dentro de um ônibus
cujo motorista ninguém nunca viu o rosto.
Quando
você entende que talvez seja só uma engrenagem fazendo o que uma engrenagem faz
— e que o babaca que te destratou na fila da padaria também pode ser só isso,
reagindo à própria sopa química temperada por toda sorte de tragédia —, a raiva
evapora. Você fica mais leve. É quase impossível odiar alguém com a mesma
intensidade depois que se admite que talvez o coitado nunca tenha tido escolha
de verdade. É o convite mais radical e mais perturbador que existe: aceitar
juntos essa mesma incerteza. Deixar de ser um juiz julgando todo mundo com uma
certeza que ninguém possui, e virar só mais um paciente correndo pelo gramado
desse hospício chamado vida.
Mas,
por que fazemos isso? Por que gastamos décadas em divãs caríssimos, tomando um
sem-fim de remédio para ansiedade e depressão? Porque passamos boa parte da
vida remoendo alguma coisa como se, naquele momento, com aquela química, aquela
história, aquele instante exato, pudéssemos mesmo ter feito diferente. Ah, mas
se eu tivesse feito assim. Não era para eu ter feito aquilo. Meu Deus, que erro
grotesco eu cometi. Como se alguém, algum dia, tivesse conseguido provar que
sim, que você podia ter escolhido racionalmente ter feito diferente. Uma
atitude é o resultado de incalculáveis acontecimentos de todas as ordens que
constituíram a fisiologia dos neurônios até aquele momento.
No
fim, talvez o que importe mesmo sejam os amores e os medos que nos arrastam através
de um universo completamente indiferente — indiferente, mas não misterioso por
escolha própria: só maior do que o instrumento que usamos para tentar medi-lo e
tentar conhecê-lo.
Da
próxima vez que você estiver trancado no banheiro, sentindo o peso do mundo,
remoendo aquele vexame de 2018, faz um favor para nós dois: olha bem para o
espelho e dá uma sonora gargalhada.
Porque
talvez sejamos isso: uma piada muito bem contada, cujo autor ninguém encontrou
ainda. E a graça está exatamente no patético de sofrer com essa síndrome de
protagonista, quando nem sequer sabemos se existe roteiro.
A
verdade inconveniente é que ninguém vai te vender a certeza de que você comanda
a si mesmo — nem quem promete, nem quem nega. Seus erros talvez sejam ecos.
Biologia sendo biologia, envolta numa camada de afeto, de história mal contada,
e de um mistério que nenhum livro de autoajuda, nenhum laboratório, resolveu
até hoje. Sei que descobrir isso dói. Mas desce logo desse palco.
Tira
essa fantasia de mártir, que já está cheirando a mofo. E não se preocupe: se
alguma atitude sua precisa mudar, ela vai mudar de qualquer jeito — por causas
físicas que existem, tenham ou não sido ainda mapeadas por alguém. Pode
descansar. Pode parar de fazer esse esforço todo de bancar quem decide sozinho
o que ninguém, até hoje, conseguiu explicar por inteiro.
Nosso
caminho é aberto durante a caminhada, só nosso, original e único. A vida já é
nebulosa e absurda demais para que você ainda queira se sentar na cadeira de
diretor de um filme cujo roteirista não existe.
Edmir
Saint-Clair