A partir daquele momento, ele precisaria dosar a agressividade, calma, objetividade e a rapidez. Era só seguir minuciosamente cada passo planejado.
Assim que o alvo atravessa as duas pistas da praia, vindo de sua
rotineira corrida vespertina pela orla de Leblon e Ipanema, entra na Rua
Cupertino Durão onde mora. Jair apressa o passo e rapidamente alcança o outro
lado da rua, onde o alvo tem que passar, obrigatoriamente. Encosta-se numa das
árvores, entre dois carros estacionados, e aguarda. Ninguém vindo de nenhum dos
lados. O alvo passa e é abordado de forma agressiva, não deixando margem para
reação alguma.
— Sérgio, está arma está engatilhada e pronta para disparar. Fique
quieto e preste atenção. Vamos até a sua casa, andando devagar e conversando
como dois velhos amigos. Se você fizer qualquer coisa errada morre. Ouviu?
Responde! Ouviu?!
Jair foi bastante agressivo na aproximação, não deixando espaço para
argumentações. Sérgio estava paralisado e apenas balbuciou um sim quase
inaudível.
Sempre foi uma pessoa muito medrosa. Jair continua.
— Quanto mais nervoso você ficar mais perigoso fica para nós dois. Então
fique calmo e tudo vai dar certo.
Com a arma dentro do agasalho, mas já devidamente apresentada a Sérgio,
os dois continuam a andar na direção do elegante prédio do jovem deputado.
Sobem direto, sem parar na portaria. Morador não precisa se identificar.
E, na maioria, nesses prédios, não se dá boa noite a porteiros. Sérgio mora
sozinho.
Na ampla sala, Sérgio percebe que não é um assalto comum.
Ele nunca fora dos mais corajosos, por isso estava acostumado a ser
submisso sem questionar. Jair o manda sentar-se no sofá da sala.
À essa altura, por todo o contexto percebido, Sérgio começa a desconfiar
porque Jair está ali. Ainda bastante nervoso tenta amenizar o clima.
— Fique tranquilo, pode levar o que quiser. Não vou causar nenhum
problema. Só, por favor, sem violência, pelo amor de Deus.
Sérgio tem a voz trêmula. Seu medo é visível e patético.
— Sérgio, sei que você tem meio milhão de dólares em cédulas e cheques
de viagem aqui no seu apartamento. Sei a que horas, onde, e a mando de quem
você pegou esse dinheiro. Sei que ninguém pode saber que esse dinheiro existe e
muito menos que está aqui na sua casa.
Sérgio ficou completamente branco. Pensou que seria roubado, mas aquilo
era bem mais do que isso. Definitivamente, não era um simples assalto. Havia
algo por trás.
Ainda sem entender, Sérgio percebe que Jair já não parece tão violento
quanto no início, mesmo assim não consegue parar de tremer. Sempre fora
medroso. Era óbvio que não estava lidando com um ladrãozinho pé de chinelo.
Pelo linguajar e pela postura, Jair é profissional. Talvez, das forças de
segurança. Na verdade, não fazia ideia de quem se tratava e de onde surgira
aquele homem.
Jair pega seu celular e começa a filmar Sérgio.
— Você vai gravar? Por quê?! Pergunta Sérgio.
— Se levanta e vai pegar a mala com o dinheiro. Diz Jair apontando o
celular.
Sérgio hesita: — Não está mais aqui... o secretário do senador já
pegou...
A voz de Sérgio falha e irrita Jair, que rapidamente
troca o celular pela pistola, engatilha e aponta para ele.
O corajoso deputado se transfigura apavorado, e imediatamente revela que
a mala está dentro do armário do quarto.
Jair não segura o riso. Os dois se recompõem, Jair volta a falar manso e
nota que o deputado havia mijado nas calças.
Sérgio entra em seu quarto, abre o armário, pega a mala, coloca-a sobre
a cama e a abre. Jair grava tudo ininterruptamente com o celular. Enquadrando o
quarto inteiro, alternando com closes da mala e dos retratos de família no
quarto do deputado, para caracterizar, com detalhes, onde estão naquele
momento.
A seguir, voltam para a sala e Jair continua gravando a mala aberta
sobre a mesa de jantar e a sala inteira ao fundo.
Pronto, aquele vídeo não deixa dúvidas de que aquele dinheiro esteve com
o deputado dentro de sua casa.
Jair recolhe a mala cheia de dólares. Diante do atônito e medroso
deputado mijado, recoloca seu agasalho esportivo, guarda o celular e a pistola
no bolso.
— Sérgio, agora vai ser o seguinte: daqui a duas horas vou enviar para
você, pelo seu WhatsApp, o vídeo que fizemos agora. Ou seja, eu tenho a prova
de que você estava com meio milhão de dólares em dinheiro vivo, e que,
obviamente, não tem como explicar porque vieram parar aqui sem comprometer
muita gente graúda.
Mostre esse vídeo para o seu "pessoal", porque ele também
garante que você não pode ser preso para não delatar. Ou seja, não ter
acontecido nada aqui será melhor para todo mundo.
Se eu souber que tem alguém atrás de mim, jogo esse vídeo na internet na
hora, os jornalistas vão adorar e isso vai virar o próximo escândalo nacional
da semana.
Sérgio ouviu calado.
Afinal, oficialmente, aquele dinheiro nunca existiu e ninguém poderia
reclamá-lo sem se incriminar. Não tinha nada a dizer. Não podia fazer nada. A
não ser aguardar o vídeo para garantir que continuaria vivo e interessante para
o poder que representava.
Jair saiu do prédio tranquilamente, não sem antes perguntar ao simpático
porteiro quanto estava o jogo do Flamengo contra o Botafogo no Maracanã:
— 4 x 0 para o Mengão, doutor! E ainda tá no primeiro tempo...
Era o que faltava para coroar aquela início de noite para Jair. Afinal,
como diz a sabedoria popular: ladrão...que rouba ladrão...está perdoado!
Este trecho faz parte do livro CONVERSAS NECESSÁRIAS.
- Edmir Saint-Clair




