ORIENTADOR LITERÁRIO

O ORIENTADOR LITERÁRIO - especializado em redação criativa - desperte sua criatividade adormecida.

QUANDO SOMOS PARA SEMPRE

 

Passa o vento, passa o tempo, passa rápido ou lento

                                                                    Nunca é demais

É sempre a seu tempo, mesmo que não pareça

Mesmo que anoiteça

Mesmo que nada aconteça

Mesmo sendo Invisível, insensível, imprevisível

Tão que parece perder-se em si

Um tempo sem tempo

Mas o tempo nunca se perde,

porque o tempo pertence só a si

Não é meu, nem seu, nem sei de quem é

Sempre correndo, sempre tecendo

Essa tela de cores, amores, sabores e beijos

Sabe exatamente para onde vão os desejos

Quando viram Felicidade,

Que é nossa grande missão, o sentido,

A solução.

 

É raro esse momento sem tempo,

E é quando tudo acontece

Quando nunca anoitece,

Quando somos para sempre.


- Edmir Saint-Clair

Gostou?  👇  Compartilhe com seus amigos

O OUTRO LADO DA MOLDURA (MOLECAGEM)

 

— Bom dia, Seu Tatá! — saudou o porteiro.

— Bom dia, campeão!

É assim que o Sr. Otávio é conhecido por todos naquele quarteirão de Copacabana: Seu Tatá. Gozava da simpatia geral — dos vizinhos, dos ambulantes e dos comerciantes, tanto os legalizados quanto os ilegais. Após o falecimento de Dona Olinda, em vez de se isolar, passou a circular mais pelo bairro. Conversava com todos. Mas o que poucos sabiam é que sua maior incentivadora para seguir em frente morava dentro de um porta-retrato, sobre a mesinha de cabeceira. Todas as vezes que se arrumava para sair, a imagem dela lhe mandava um beijinho, deixando um leve rastro embaçado no vidro do porta-retrato, como um sopro carinhoso.

Seu Tatá não tinha filhos, morava sozinho e a aposentadoria lhe bastava. Contudo, o fator determinante para sua recuperação após a viuvez foi o reencontro com a fotografia mágica de Dona Olinda. A imagem não apenas começou a lhe enviar mensagens, mas também a participar ativamente de cada nova descoberta em sua vida. Antes mesmo de se aventurar pelas redes sociais, havia o ritual matinal de escolher a roupa do dia. Seu Tatá exibia as opções em frente à mesinha de cabeceira. Uma camisa excessivamente florida? A foto de Dona Olinda parecia adquirir uma sutil sombra de desaprovação — e, às vezes, ela cruzava os braços dentro da moldura. Uma camisa azul, sua cor predileta? O sorriso na fotografia se alargava visivelmente, quase como um "Essa mesma, meu velho!", com um leve inclinar de cabeça e o polegar levantado em aprovação. Outro evento significativo foi o reencontro com amigos da juventude, ainda vivos, facilitado pela filha de um vizinho, que o persuadiu a adquirir um notebook e criou perfis para ele em todas as redes sociais. Tudo isso, naturalmente, com o incentivo diário da foto de Dona Olinda. Sempre que o percebia animado, a imagem dela o presenteava com um sorriso radiante, e um brilho sutil parecia cintilar em seus olhos fotografados.

Ele se deslumbrou com as novas possibilidades. Passava horas a fio procurando antigos amigos, namoradas, conhecidos, recortes de jornais de época, vídeos antigos e tudo o mais que compunha sua memória afetiva. Em algumas tardes, viajava no tempo — ele e a fotografia de sua eterna companheira se divertiam observando o efeito da passagem dos anos nos rostos dos amigos reencontrados no Facebook.

Segundo seu médico, Seu Tatá apresentava melhoras em todos os índices e marcadores que os exames clínicos podiam revelar. Seu estado de espírito parecia ter sido rejuvenescido, como se tivesse mergulhado na fonte da juventude. Para completar o quadro de renovação, encontrou cinco amigos de longa data, ainda vivos, através do Facebook, e que, para sua alegria, ainda residiam em Copacabana. Passaram a se encontrar diariamente na praça do Bairro Peixoto, onde se divertiam, jogavam cartas e compartilhavam memórias e vivências.

Seu Tatá parecia ter retornado à juventude. Até o dia em que despertou com o ruído de máquinas pesadas exatamente sob sua janela. Era no terreno ao lado, que estava sendo preparado para ser um galpão de estacionamento. Ele suportou o barulho por vários dias, embora aquilo o irritasse profundamente. Mas, o que fazer? Ao menos, o incômodo cessava por volta das cinco horas da tarde. A foto de Dona Olinda, habitualmente sorridente, já demonstrava impaciência com a barulheira incessante; seu sorriso fotográfico parecia um pouco mais tenso a cada dia de obra.

Até o dia, ou melhor, a noite, em que a concretagem do piso estava em sua fase final. Três máquinas, semelhantes às grandes enceradeiras domésticas de outrora, invadiram a noite com seus ruídos, não excessivamente altos, mas extremamente irritantes. Diariamente, Seu Tatá precisava remover a poeira fina que a obra depositava sobre os móveis. Com especial atenção à fotografia da amada. A imagem dela parecia ter alergia ao pó — dava uma discreta tremidinha dentro do porta-retrato, como se segurasse um espirro iminente ou, por vezes, franzisse o narizinho com evidente desagrado.

Quando Seu Tatá despertou de um cochilo, por volta das oito horas da noite, as máquinas ainda operavam, o que intensificou sua irritação. A foto de Dona Olinda não estava para gracejos naquela noite; visivelmente contrariada, a boca antes sorridente agora era uma linha reta e severa. Com certeza, aqueles operários inconvenientes se estenderiam até as dez da noite com aquele barulho. Se não parassem, ele acionaria a polícia. Afinal, para isso existia a Lei do Silêncio – ao menos em sua época, existia, e as pessoas, assim como as obras, respeitavam certas convenções de boa vizinhança. A foto no porta-retratos anuiu prontamente, a cabeça da imagem parecendo inclinar-se minimamente em um gesto afirmativo.

Às dez e meia da noite, não havia qualquer sinal de que as máquinas seriam desligadas. A essa altura, Seu Tatá estava profundamente irritado, sentindo uma fúria que há muito não experimentava. Dona Olinda, por meio de sua expressão na foto, sugeriu que ele chamasse a polícia; sua feição era de pura indignação. Ele pegou o telefone, mas hesitou — achou que não adiantaria. A polícia demoraria a chegar – se é que chegaria – e, até lá, os operários já teriam encerrado o trabalho, tornando inúteis tanto a irritação do casal quanto o chamado telefônico. Contudo, ele precisava fazer alguma coisa. Dona Olinda concordou, mas fazer o quê? A foto sorriu com um brilho maroto nos olhos e indicou a cozinha com um sutil movimento do queixo. Eles sempre se entenderam pelo olhar.

Ele foi até a geladeira, recordando-se de como era bom ter sido um moleque de Copacabana. Dona Olinda conhecia bem o seu velho. A foto o apoiou com um sorriso de canto de boca e o dedo indicador em riste; e, para selar a cumplicidade, Seu Tatá jurou ter visto a imagem dela piscar um olho, como nos velhos tempos de travessuras juvenis conjuntas. Só de pensar no que faria, sua pressão arterial diminuiu, a glicose baixou e quase teve uma ereção. A foto adorou este detalhe, o sorriso dela pareceu se alargar ainda mais.

Pegou uma caixa de ovos cheia, apagou as luzes do apartamento, fechou as cortinas, mas não as janelas. E começou a atirar os ovos nos três homens que operavam as máquinas e em mais um que os fiscalizava.

Lançava os projéteis e se escondia, rindo sem parar. Cada ovo arremessado arrancava uma gargalhada. E o velho tinha uma mira excelente — o que provocou uma crise de riso impagável no casal.

Não foram necessários mais do que meia dúzia de ovos para que a primeira máquina fosse desligada, seguida pelas outras. No porta-retratos, Dona Olinda exibia um sorriso doce, pleno de aprovação e orgulho; a imagem parecia até mais corada e vibrante.

Naquela noite, Seu Tatá dormiu como um anjo e sonhou com Dona Olinda a noite inteira. Ao acordar, encontrou uma pequena flor sobre a mesinha de cabeceira. Não se lembrava de tê-la colocado ali. Mas sorriu.

E a foto também.                                                                                                           

Edmir Saint-Clair




A DESPEDIDA


Eu tinha 17 anos e era feliz. O verão dourava a pele e a vida corria fácil. Até o dia em que meu pai chegou do trabalho e falou sem a menor cerimônia:

− Vamos morar em Brasília.

Ouvi claramente, mas custei a processar a informação. Ninguém naquela mesa de jantar esboçou reação alguma. O silêncio foi sepulcral. Respirei fundo. Levantei-me e percorri o caminho até sair pela porta de casa, anestesiado. Estava em choque. O pensamento seguinte foi nos amigos, nas meninas que mal começara a conhecer e nos meus planos, e deles não constava morar em Brasília. Não sabia como lidar com aquela enxurrada de emoções e sentimentos que me tomaram e fervilhavam por todo meu corpo.

A partir daquele instante minha vida mudaria para sempre e, por algum motivo, eu percebi isso com uma clareza assustadora.

Resolvi que não contaria aos amigos. Não por enquanto. De preferência nunca. Não sabia por quê. Talvez por receio de que eles não sentissem a mesma tristeza que eu estava sentindo.

Mas a notícia se espalhou, meu irmão e irmã não pensavam como eu.

Meu primeiro amigo a saber me surpreendeu por sua reação: ficou triste e demonstrou. Fiquei mais triste ainda, não esperava essa reação, ele era um gaiato, fazia piada com tudo, mas dessa vez não fez.

As coisas estavam mudando. Os amigos e amigas foram cúmplices de momentos de tristeza e outras emoções desconcertantes e inéditas que me aconteceriam dali para frente, típicos daqueles melodramas adolescentes baratos que eu detestaria não ter vivido pessoalmente. Se por um lado a tristeza era presente, por outro, nunca havia me sentido tão querido por todos.

Meu pai tentou nos consolar, nos prometendo deixar o apartamento da família intacto para que pudéssemos vir ao Rio sempre que possível.  Num futuro muito próximo, isso faria uma enorme diferença no curso da minha vida.

Na noite véspera de Natal, depois de passarmos a meia-noite cada um em sua respectiva casa dos pais, fomos nos encontrar na casa do Marquinho. Cada um de meus amigos, em separado, me falou alguma coisa carinhosa que marcou aquela noite de forma indelével.

Antes de voltar para casa, caminhei sozinho pela praia da minha cidade chamada Leblon. Caminhei por minha infância, meus primeiros amigos na Rua José Linhares, na Bartolomeu Mitre, por minha adolescência no Campestre (clube tradicional do Leblon), no Santo Agostinho... Lugares icônicos do bairro e da Cidade Maravilhosa: o bar Clipper, a lanchonete BB Lanches, Balada Sucos, Petit Fours, Pizzaria Guanabara (Baixo Leblon). Cada rua e cada canto com suas muitas histórias, todas partes inseparáveis de mim.

O tempo começou a passar mais rápido e nunca mais passaria devagar. Nunca mais.

Dia da partida.

Pedi a todos que não fossem ao aeroporto, que se despedissem de mim ali mesmo, na praia. Há semanas eu me despedia, estava cansado, muito cansado. O voo para Brasília estava marcado para o final da tarde.

Acordei cedo e a primeira coisa que pensei foi nos meus óculos escuros. Meus olhos já acordaram chorando. Me demorei na cama, me demorei no banheiro, me demorei na esperança de que o tempo se demorasse também.

Desde o dia em que soube que iria embora, comecei a prestar mais atenção em tudo e em todos que me rodeavam a vida toda e que até aquele momento eram apenas parte da paisagem diária. Desde o porteiro até os portugueses do bar, Seu Joaquim e Seu Antônio. Não posso esquecer-me da Dona Maria!

Parecem os nomes mais óbvios para personagens caricatos de portugueses donos de Botequim no Rio. Mas, esses são de pessoas absolutamente reais que tinham exatamente esses nomes. E, são ainda mais peculiares do que qualquer personagem fictício já criado. Uma das coisas que eu sempre achei curioso demais neles, era o fato de, durante anos a fio, encontrar com eles tarde da noite, depois de fecharem o bar, andando muito lentamente pela rua principal do Leblon, e sempre na mesma formação: o Seu Antônio na frente carregando uma sacola, seguido pela Dona Maria, a uns dois passos atrás, sempre carregando mais sacolas do que ele. Um hábito curioso e estranho. Eles não andavam juntos. Eles andavam separados, indo para o mesmo lugar. Eram casados e já aparentavam idade.

O terceiro sócio do bar, o Seu Joaquim, era um capítulo à parte. Completamente lesado. Ele era tão confuso que alguns sacanas davam uma nota de cinco para pagar algo de 10 e ainda levavam troco.

O certo é que naqueles dias tudo e todos haviam adquirido um significado profundo e já faziam parte da minha saudade. Parei no bar para comprar cigarros e até a atrapalhação do seu Joaquim com o troco, que sempre me irritava, desta vez me provocou ternura. Cheguei à praia mais cedo que o de costume e caminhei pela areia, perto do mar, até o final do Leblon. Como sempre fizera, mas nunca como naquela manhã.

Eu estava começando a trilhar um caminho que ainda não conhecia.

Havia passado toda minha vida naquelas areias sob os olhares dos gigantes de pedra que, agora, pareciam estar tristes por minha partida. Os gigantes eram o morro Dois Irmãos, no final do Leblon, nossos guardiões, meus irmãos...

Olhei, tentando reter aquela imagem, fotografá-la, aprisionar na memória cada detalhe daquelas montanhas sagradas. Fixar-me naquela paisagem, imprimi-las na parte mais profunda do meu ser, me agarrando a elas como se fossem desaparecer no minuto seguinte.

Caminhando de volta, comecei a encontrar os amigos. Ritinha foi a primeira a me encontrar, ela me fizera sentir amado naquele verão, quando o sol dourou nossa pele e nos fez feliz. Meus amigos foram chegando aos poucos e, um a um, sentaram-se ao meu lado, calados. Uma incomum formação visual de garotos e pranchas de surf coloridas e alinhadas na beira do mar da praia do Leblon. Cada um com suas pranchas, mas ninguém dentro d'água. O mar estava vazio.

Despedi-me e fui para casa, estava muito difícil ficar ali.

Chegou à hora. Entrei no carro e fomos para o Aeroporto do Galeão, eu, meus pais e meus irmãos. Ao chegar à entrada, a primeira coisa que vi foram meus amigos, tinham ido de surpresa no carro do Bode e na Kombi lotada do porteiro de um dos prédios do Condomínio dos Jornalistas. Foi um dos momentos mais emocionantes que vivi em toda minha vida. Como foi bom vê-los. Uma emoção profunda. Inesperada, comovente e inesquecível.

Eu sabia que estava vivendo um dos momentos mais marcantes da minha vida. Uma consciência da importância daquele momento, da eternidade daqueles instantes.

Meu desejo era abraçar todos ao mesmo tempo e nunca mais ir embora dali, viver para sempre no saguão do Aeroporto do Galeão. Mas, eu tinha que ir embora.

A vocês, meus amigos e amigas, minha mais profunda gratidão por me fazerem sentir tão querido e tão amado. Vocês, assim como os gigantes de pedra, estarão para sempre em minhas lembranças e em minha alma eternamente.

A você, doce Ritinha, obrigado pelo desmaio no aeroporto, por seu carinho e pelo seu lindo coração.

Muito obrigado pelo amor de todos vocês.

Uma semana depois, eu estava de volta!

 - Edmir Saint-Clair




Gostou?  👇  Compartilhe com seus amigos

DESTINO MENINO.

  


 Todo minuto é momento

Um invento, um sentido,

Por fora, por dentro,

É cada segundo, sem tempo,

É quase nada no vento

 

A vida são horas correndo

e se existe ou não um destino,

Ele é só um menino 

                                        que não sabe onde ir

 

A verdade é que nada se sabe,

Se é do errado que se chega ao certo,

Se é para frente, para trás ou para os lados,

Porque não tem lado certo, nem errado

Não tem nem em cima, 

                                            nem embaixo

 

E os minutos continuam correndo,

E a gente sempre mais lentos,

Sem saber para que andar

Já que é o tempo que nos carrega

Até onde quiser nos levar

 

A mim, que me leve 

                                em qualquer pé de vento

Para um tempo que seja de amar.


– Edmir Saint-Clair


Gostou?  👇  Compartilhe com seus amigos